"TEMOS UMA IMPRENSA ENVIESADA NO QUE DIZ RESPEITO A ISRAEL "

"TEMOS UMA IMPRENSA ENVIESADA NO QUE DIZ RESPEITO A ISRAEL "

Helena Ferro Gouveia: “Temos uma imprensa enviesada no que diz respeito a Israel”
Helena Ferro de Gouveia é provavelmente a mais vocal defensora de Israel em Portugal. Na ressaca do 7 de outubro de 2023 e com a subsequente investida retaliatória de Israel na Faixa de Gaza, a familiaridade com o país colocou a sua intervenção pública no olho do furacão.

Gal Zamir 
Mesmo quando a solidariedade inicial para com o povo israelita desvaneceu, abrindo a porta a um intenso criticismo à conduta das IDF no enclave palestiniano, Helena Ferro de Gouveia não desertou e manteve, como ainda mantém, a sua posição, considerando que o 7 de outubro, o atentado terrorista «mais sangrento nos últimos 100 anos», foi relativizado com demasiada rapidez. A opinião pública, influenciada em grande medida pela opinião publicada, tem esquecido a memória das vítimas do Hamas, que manteve corpos de reféns israelitas até janeiro deste ano, relativizando o seu sofrimento e considerando-o como uma consequência inevitável da agressividade e do expansionismo sionista. Este é o argumento central do seu livro “O Dia Que Mudou Israel: O Massacre do Hamas Contado Pelos Sobreviventes”, publicado em setembro de 2024. No fundo, acredita a autora, foi encontrado um pretexto para libertar a propaganda antissemita e glorificar terroristas no altar da luta pela emancipação palestiniana. Helena Ferro de Gouveia é autora de outros três livros— “Domadora de Camaleões” (2016), “Mulheres na Guerra” (2023), e “O Urso e a Águia (2025) —, comentadora de política internacional na CNN Portugal, deputada municipal em Lisboa eleita pela AD, e Guest Lecturer na Porto Business School. 

Comecemos pela questão da propaganda. Desde tempos imemoriais, a propaganda é, em tempo de guerra, uma daquelas armas imprescindíveis no arsenal de qualquer beligerante. Existe a necessidade de justificar o sofrimento trazido pela guerra e moldar a opinião pública, interna e externa, fundamental para facilitar o esforço e legitimar as ações empreendidas no terreno. Porém, existe uma realidade difícil de ignorar; como se lê numa famosa frase atribuída a Ésquilo, numa guerra, a verdade é a primeira vítima. A Helena considera que Israel foi alvo, imediatamente após o 7 de outubro, de uma propaganda maliciosa para suavizar e relativizar as atrocidades cometidas pelo Hamas. Porquê?  

Respondendo diretamente e de uma forma muito clara, no dia 8 de outubro, decorridas nem 24 horas sobre o massacre, havia nos Estados Unidos, em Nova Iorque, na Times Square, uma manifestação. Para grande espanto de muita gente, não era uma manifestação de solidariedade com o único Estado judaico ou com as vítimas, mas era uma manifestação que dizia que resistência não é terrorismo. Isto é absolutamente inacreditável, e, portanto, face à morte de 1.200 pessoas, ao rapto de25 pessoas, imediatamente, nem 24 horas tinham decorrido, nós tínhamos uma máquina anti-Israel na rua, que nem deu tempo aos israelitas de perceber o que é que se estava a passar, nem deu tempo ao mundo de fazer luto. E isto, para mim, é muito sintomático da forma como a questão israelita, e Israel, é tratada. 

Há um livro interessantíssimo de Douglas Murray, Sobre as Democracias e os Cultos de Morte, onde faz uma comparação que eu gostava de mencionar. Para perceber a dimensão que o 7 de outubro teve para Israel, é fácil Israel tem o tamanho do Alentejo. Se matassem 1.200 portugueses num só dia, eu acho que nós conseguíamos compreender a dimensão. Mas se fizéssemos uma comparação com os Estados Unidos, se as mortes de 7 de outubro tivessem acontecido em tempos proporcionais, equivaleria a 44.400 americanos mortos num só dia ou o equivalente a 11 ataques como o de 11 de Setembro. Foi o maior número de mortes de judeus desde o Holocausto. É destas dimensões que estamos a falar. E não é só a magnitude; é a forma como este ataque foi perpetrado. Contra famílias que foram queimadas vivas, contra 350 jovens que estavam a dançar num festival de música, que podia ser o Boom, que podia ser qualquer um dos festivais de verão que temos cá em Portugal, muitos deles jovens pacifistas, jovens de esquerda, jovens que não se metiam em política, tinham a sua vida, estavam nem aí, não eram apoiantes deste governo, e foram assassinados. Foram disparados rockets contra eles, foram metralhados, as mulheres foram violadas, foram violadas à frente dos namorados, foram mutiladas genitalmente, os homens foram violados, e aqui fez-se um número considerável de reféns. E quem foi a Israel logo a seguir, como eu, que fui aos kibbutzim, onde isto aconteceu, fui ao local do Festival Nova, onde isto aconteceu. Estou muito habituada. Fiz muito contexto de guerra, mas desta vez vi cenas de violência indizível. Lembro-me de ter ido a Israel para escrever o meu livro, e ter ido à morgue, onde foram entregues os 1.200 cadáveres, e mesmo médicos experimentados, médicos militares, médicos patologistas, choravam face àquilo que viam. Portanto, é preciso perceber o que é que isto causou na sociedade israelita, o trauma que causou e o impacto que teve. E logo a seguir, aquilo que nós assistimos foi uma tentativa de negar o que aconteceu. Aliás, isso aconteceu com as questões da violência sexual contra mulheres, que só dois anos depois foram reconhecidas, com provas exaustivas, provas forenses, provas documentais, com vídeos feitos pelo próprio Hamas com as suas GoPro. Muitos negaram este tipo de violência, até organizações femininas e feministas. A UN Women, por exemplo, demorou dois anos a remitir os crimes. 

Portanto, há uma máquina de propaganda anti-Israel, muita dela fomentada também pelo Qatar, por via da sua televisão Al Jazeera. É interessante que nós no ocidente boicotamos, e bem, a Russia Today, que é a caixa de ressonância do governo de Moscovo. A Al Jazeera não é nada mais nada menos do que a caixa de ressonância do Qatar. E não é nada de novo haver propaganda contra Israel, basta ver o número de resoluções das Nações Unidas que se ocupam com Israel, por comparação, por exemplo, com as resoluções que se ocupam com a China, ou com o Irão, ou com a Síria, ou com a Líbia, ou com outros países onde há violações flagrantes de direitos humanos. Isto não é nada de novo, eu recordo, e lá está a importância da história: quando foi declarada a independência de Israel, o primeiro país a reconhecê-la foi precisamente a União Soviética. Só que no momento em que a União Soviética se apercebeu que Israel não ia ser um satélite soviético no Médio Oriente, começou a trabalhar contra Israel. Isto, portanto, começou desde o início, e criou mesmo um departamento de anti-sionismo. Parte da propaganda que nós atualmente vemos repercutida e espalhada pelo mundo árabe, pelo mundo muçulmano, mas também por uma série de idiotas úteis no Ocidente, nomeadamente da esquerda e da extrema-direita, é propaganda que foi criada pelos soviéticos, que foi adaptada e que vai sendo repetida. Portanto, se me pergunta se há propaganda contra Israel, respondo claramente: há.  

E o que me custa muito neste conflito—um conflito muitíssimo complexo, com muitas nuances históricas e religiosas—é que se sabe muito pouco sobre este conflito, mas tem-se muitas certezas, sobretudo numa era onde se procura muita informação digital. A desinformação infiltra-se com facilidade, as pessoas não sabem rigorosamente nada da história, e Israel tem mais de 3 mil anos de história. Aliás, basta olhar para as pedras. Os homens e as mulheres podem mentir, mas pedras não mentem. Quando vamos, por exemplo, a Jerusalém, basta irmos ao West Wall, ao Muro das Lamentações, e vemos que o muro é a primeira estrutura que lá está, só depois surgiram as igrejas cristãs, a Golgata, que toda a gente vai visitar, o Sagrado Sepulcro, e depois, no século VII, surgiu o Islão, e a Esplanada das Mesquitas está construída em cima do muro. Portanto, é preciso ter estes conhecimentos, perceber que os judeus são naturais daquele território desde há 4 milénios, pelo menos, e que os árabes chegaram muitíssimo mais tarde. É fundamental perceber que há um direito legítimo. 

Depois há sempre aqui uma série de mentiras e de preconceitos que foram sendo transmitidos e que são repercutidos de forma acrítica, sem se pensar, e que demonstram uma enorme ignorância sobre este tema, que é em si é muito complexo. Até mesmo quando se fala de sionismo, há muitos tipos de sionismo; o religioso, o político, etc. Portanto, muitas vezes usam-se termos, usam-se conceitos, usam-se uma série de coisas na discussão pública, que se desconhecem, e isto dá aso a ataques violentíssimos. É interessante nós vermos, depois do 7 de outubro, a quantidade de sinagogas que foram atacadas, a quantidade de cidadãos judeus, que não tem nada a ver com o governo de Benjamin Netanyahu, que viviam na Austrália, estavam numa praia na Austrália, ou nos Estados Unidos, que foram atacados só por serem judeus. Portanto, esse velho fantasma, um fantasma secular, do antissemitismo continua muito vivo e é amplificado por aquilo que é a propaganda muçulmana. Porque eles veem os judeus como adversários, e quando nós olhamos para o Hamas, ou quando olhamos, se quisermos, para a raiz de tudo isto, que foi a Revolução Islâmica do Irão, percebemos que, além do anti-hebraicanismo e do combate àquilo que é os Estados Unidos, e a Revolução Islâmica declarou jihad aos Estados Unidos, aparece sempre Israel. Há aqui muita propaganda e uma máquina de propaganda, que depois é multiplicada.  

Temos 16 milhões de judeus em todo o mundo, não apenas em Israel, em todo o mundo. É uma população muito, muito, muito pequenina. Temos um único Estado hebraico no mundo, enquanto temos umas dezenas de Estados muçulmanos onde se pratica a religião, e temos aqui um ataque violentíssimo contra estas 16 milhões de pessoas, que depois é amplificado pelos 2 mil milhões de muçulmanos que existem por todo o mundo, a quem se juntam os idiotas úteis da esquerda. 

Israel tem perdido, claramente, a guerra da propaganda. Recentemente, num esforço para tentar reverter essa derrota, em Portugal houve a muito fala viagem de influencers a Israel, cujo objetivo propagandístico me parece evidente, a propaganda faz parte da guerra. Porém, gostava de perguntar-lhe o seguinte: não poderemos considerar este exercício ineficaz, uma vez que as posições fortemente pro-Israel dos participantes já eram conhecidas por todo o seu público-alvo? Não foi chover no molhado? 

Bem, eu não vou substituir a Embaixada de Israel, foram eles que fizeram os convites a quem entenderam, e os influencers que foram aceitaram porque entenderam. Mas não considero que tenha sido ineficaz. Pelo contrário, pôs o país inteiro a discutir esta viagem, e isso parece muitíssimo importante. E sim, são pró-israelitas, e qual é o problema de ser pró-israelita? Temos pessoas em Portugal que são pró-Hamas, e que o manifestam o From the River to the Sea—um slogan proibido em países como a Alemanha, porque o slogan implica que se apague Israel do mapa. Aliás, eu recordo-me que na mais recente festa do Avante, havia uma organização terrorista que foi convidada, e que depois acabou de ser excluída da festa. Portanto, se em Portugal há a liberdade de ser pró-terrorista, não vejo o problema em ser pró-israelita, sendo que Israel é uma democracia, uma democracia com os seus problemas, naturalmente, que tem um governo de direita e de extrema-direita, isso também é inegável, é um governo que está em guerra. Em guerra cometem-se atrocidades, isso também me parece ser inegável, mas não vejo problema nenhum em levar influencers a Israel e mostrar a realidade sobre aquela perspetiva que era a deles. Houve conteúdo que eu vi e que não gostei, achei completamente disparatado. Acompanho o conflito do Médio Oriente há 30 anos, mas acho que é legítimo levar até lá as pessoas e as pessoas verem. 

Porque, por exemplo, uma das mentiras, mas mentira na praça pública, é a questão do apartheid. Quando olhamos para aquilo que é objetivamente Israel, se pensar que mais de 40% dos médicos em Israel são árabes e muçulmanos, percebemos que não há apartheid nenhum. Se percebemos que, por exemplo, no Supremo Tribunal de Justiça—Israel não tem uma constituição, o Supremo acaba por ser aqui o fator que equilibra os poderes—tem juízes árabes. No Knesset, que é o parlamento israelita, há partidos árabes e há partidos árabes que também já estiveram no governo. Aliás, basta ir a qualquer rua de Telavive, ou qualquer rua de Jerusalém, e percebemos que esta ideia do apartheid é absurda, não é factual, e foi criada precisamente para denegrir a imagem israelita. Portanto, parece-me que podemos, e devemos, ser muito críticos em relação ao governo de Benjamin Netanyahu, a Ben-Gvir, a Smotrich—algumas das afirmações que eles fazem são absolutamente desprezíveis. Outra coisa é tomar o país todo como um estado de apartheid ou como um estado racista, que não o é factualmente, e, sobretudo, culpar os judeus e os judeus internacionais, os judeus alemães, os judeus franceses, os judeus australianos, por aquilo que são as ações dos seus governos. Era como se pegássemos em todos os russos que vivem em todos os países, ou em todos os turistas russos, e os perseguíssemos, os aterrorizássemos, os matássemos, como está a ser feito aos israelitas, apenas por serem israelitas. E esta dimensão é uma dimensão muito importante. 

Mas a minha questão não era sobre legitimidade da visita ou a legitimidade dos propósitos e dos valores defendidos pelas pessoas que foram. Era sobre a propaganda em si, da eficácia que teve junto do público português. 

Sim, parece-me que foi eficaz, não se discutiu mais nada durante semanas em Portugal. 

Mas parece ter sido sempre discutido do ponto de vista negativo, ou pelo menos foi assim que a imprensa o passou para o público. 

Ainda bem que toca nesse aspeto. Isso depende das bolhas, e essa é parte do problema. Em Portugal, temos uma imprensa completamente enviesada no que diz respeito a Israel desde o primeiro dia. Basta começarmos na agência Lusa. Há takes da Lusa muitíssimo problemáticos e até na forma como transmitem informação, sendo que a Lusa é a fonte primária de informação e depois os jornais fazem o push, vão lá beber, e publicam as coisas de forma acrítica. E parte do problema começa aí. Temos uma imprensa que está alinhada à esquerda, claramente. Vemos jornais que foram em tempos de jornais de referência, como é o caso do Público, que, na minha perspectiva, e eu assumo tudo aquilo que vou dizer, tem publicado takes de teor antissemita, que em nada avergonhariam as publicações dos anos 30 do século passado. Temos jornais como o Expresso, que alinham pelo mesmo diapasão. Portanto, tudo aquilo que é anti-Israel, contra Israel, que dê má imagem de Israel, é veiculado. Até porque nos cursos de comunicação social temos um alinhamento e parte da academia está capturada pela esquerda, e por uma esquerda que é antissemita, claramente, e é anti-Israel também. Portanto, não temos aqui aquilo que era o dever ético dos jornalistas a ser cumprido. Porque quando vemos os takes, vemos sempre “Israel atacou”, mas Israel não é atacado. Nunca há centenas e milhares de mísseis e de rockets disparados em direção a Israel. Bastava Israel publicar diariamente o número de alarmes que tem, que obrigam as pessoas a esconder-se, a deslocarem-se para abrigos, e o número de projéteis que são lançados contra Israel, para se perceber a dimensão do problema, que não é unidimensional. Só que quem vê a nossa imprensa, parece que Israel é um gigante que não estava a ser atacado por todos os lados: atacado a partir de Gaza, atacado a partir do Líbano, atacado a partir do Iraque, atacado a partir da Síria, e que a única coisa que Israel fazia era atacar. Portanto, temos claramente, e digo isto de uma forma bastante taxativa, uma imprensa enviesada. 

Quanto à imprensa internacional, veja-se o caso da BBC, que foi obrigada a pedir desculpa. Veja-se o caso do New York Times, que foi obrigado a pedir desculpa e a corrigir informação que havia dado. Veja-se o caso da Unicef, que neste último relatório veio desmentir uma narrativa altamente prejudicial para a imagem de Israel, que era a narrativa de fome. Houve, de facto, casos de subnutrição durante o conflito, sem dúvida. Houve crianças que morreram de subnutrição, sem dúvida, mas nunca houve uma fome em Gaza. Uma fome segundo os critérios oficiais das próprias Nações Unidas. E isto, no último relatório da Unicef, está claro, é claríssimo. Só que não vemos os media desfazerem os erros que eles próprios criaram. Portanto, em relação a Israel, há aqui um preconceito e ideias preconcebidas que depois não são trabalhadas. E isto é pôr em causa todo um país. Há aqui uma assimetria no tratamento noticioso e uma violação de todos aqueles que são os critérios éticos. Vemos jornalistas que se esquecem de que a sua posição não é a de comentadores ou de analistas; é a de serem jornalistas e dar ambos os lados da questão e não escolherem um lado e fazerem jornalismo de causas. 

Quando olhamos para aquilo que é a realidade e depois olhamos para aquilo que são as maiorias silenciosas, nós vemos, por exemplo, no caso da Eurovisão, o que acontece. O público vota a favor de Israel. E vota porquê? Porque não está para aturar idiossincrasias ideológicas. Isto não significa, atenção, que em Gaza não tenham sido cometidos excessos, que as consequências de uma guerra que foi querida, desejada e provocada pelo Hamas não sejam terríveis para a população civil. Mas veja-se, neste momento, que o Hamas está a dizimar opositores palestinianos. Quantas notícias vêm nas nossas televisões, nos nossos jornais? Zero. Portanto, tudo aquilo que seja para atacar Israel é noticiado, é amplificado por preconceito ideológico por parte da imprensa, ou porque acham que isso vende, ou porque acham que isso é popular, ou porque são ignorantes e não sabem mais. E tudo aquilo que seja de depois corrigir erros é muito difícil. Ao menos a BBC pede desculpa, que é um hábito que infelizmente em Portugal não temos.  

Eu aconselhava o livro do Bernard Henri Lévy, um longo ensaio sobre a solidão de Israel, onde isto também vem explicitado de uma forma muitíssimo clara. A questão é que não se lê, lê-se muito pouco. Procura-se informação, e voltamos à questão da propaganda, nas redes sociais, nos TikToks da vida, nos X’s da vida, e aquilo que nós vemos é máquinas de propaganda contra máquinas de propaganda. E Israel perdeu claramente essa guerra. Portanto, quando diz que esta viagem de influências foi ineficaz, eu discordo de si. Teve a virtude de pôr as pessoas a ver. 

 Eu não disse que achava que era ineficaz, eu estava a perguntar se a Helena achava. Não estava a dar a minha opinião. 

Apesar de ter havido conteúdos que eu não publicaria, que acho que não trazem nada de novo, as pessoas foram lá, são livres de publicar, e isto teve a virtude de pôr as pessoas a discutir Israel, e a discutir Israel de uma forma perfeitamente livre. Veio também tornar bastante óbvio os vieses que existem na imprensa e no tratamento noticioso em relação a Israel, e sobretudo para mim, que estudo este conflito há muitos anos, a quantidade de afirmações ignorantes que só demonstram desconhecimento do real. 

Vou dar-lhe um exemplo. A questão das crianças e das baixas, portanto dos mortos em Gaza. Primeiro ponto, a comunicação social, se recebesse um comunicado de imprensa a dizer houve X mortos e esse comunicado fosse da al-Qaeda ou do Daesh, a comunicação social provavelmente questionar-se-ia, e bem, “isto será verdade, não será verdade?” Tudo aquilo que foi fornecido pelo Ministério da Saúde do Hamas, um grupo terrorista conhecido pela sua manipulação, foi dado com bom. Ninguém verificou, ninguém teve o cuidado de pôr aqui reticências, nada. Depois houve a questão dos jornalistas do Hamas.  

Eu estive em Gaza em 2008 depois da tomada de poder pelo Hamas. Uma das primeiras medidas que foram tomadas pelo Hamas foi precisamente a islamização das redações e o fim do jornalismo livre. Portanto, não há jornalismo livre em Gaza, nunca houve. Nós tivemos pessoas a trabalhar para órgãos de comunicação social internacionais e muitos deles eram operacionais do Hamas, aliás, como isso ficou depois documentado pelo próprio Hamas e pela jihad palestiniana naqueles que são os obituários, onde eles aparecem como mártires. Portanto, se são mártires, então eram jornalistas ou eram combatentes? Aparecem descritos como combatentes. A mesma questão em relação ao pessoal de saúde. Muitos deles eram militares, com cartão de militar, também do Hamas. Portanto, é preciso perceber Gaza.  

E agora vou aproveitar: tenho aqui dois livros que acho absolutamente fabulosos que recomendo sempre quando trago estes temas. O primeiro é o Filho do Hamas, escrito pelo filho de um dos fundadores do Hamas e que nos dá uma imagem de dentro do que é este movimento. E o segundo é um livro [Die Hamas: Herrschaft über Gaza, Krieg gegen Israel] de um dos maiores conhecedores deste movimento terrorista, que é o Joseph Croitoru, onde ele explica aquilo que se passou em Gaza e como o Hamas foi consolidando a sua estrutura de poder.  

E como é que consolidou? 

Primeiro, matou centenas de pessoas da Fatah. Israel saiu unilateralmente de Gaza, com uma decisão que causou muita polêmica, e foi o Ariel Sharon, que era um político de direita, a sair unilateralmente, acreditando que assim conseguiria a paz. Deixou uma região completamente desenvolvida com estufas, com dessalinizadores, com uma economia que era próspera. Entregou Gaza “chave na mão”. Houve cenas desesperadas do IDF a arrancar israelitas de Gaza que não queriam sair de lá, mas Israel tomou esta decisão porque queria paz, portanto foi um passo corajoso do Ariel Sharon. A seguir, realizaram-se eleições, o Hamas ganhou, matou e dizimou todos os membros da Fatah e tomou conta da faixa de Gaza. Depois, deu-se a islamização da faixa de Gaza: a islamização da educação, a da comunicação social, etc. Por isto, recomendo muito este livro que explica todos esses detalhes.  

Aquilo que nos chega de Gaza, com raríssimas exceções, é também um instrumento de propaganda, e nós temos aqui aquela ideia do campo de concentração a céu aberto. Em Gaza havia hotéis 5 estrelas, havia gelatarias, havia carros de última geração, havia toda uma vida mais ou menos normal. É curioso que alguns dos parapentes que foram utilizados no 7 de outubro faziam parte de um projeto pago por nós, pela União Europeia, para que houvesse turismo com parapentes nas praias da faixa de Gaza. São todos estes detalhes que não são conhecidos. Faz-se uma amálgama, criam-se todas estas perceções como se houvesse um lado muito mau e um lado que ocupa aqui o estatuto de vítima universal, não deixando mais espaço na comunicação social para outras tragédias. Ninguém fala do que se está a passar no Iémen, no Afeganistão, no Sudão (que é, aliás, a maior e mais longa guerra no continente africano, estamos a falar de uma guerra longuíssima desde a independência, desde 1940). Há aqui um estatuto de vítima universal que ocupa tudo e todos, que suscita paixões e que torna praticamente impossível ter aqui um debate livre de emoções quando se fala do conflito israelo-palestiniano. Mas a verdade é que houve uma tentativa e já foi oferecida ao lado palestiniano 5, 6, 7 vezes a possibilidade de terem um Estado, e a escolha acabou por ser sempre, infelizmente, o terrorismo, a resposta terrorista, em vez de aceitar. O próprio Bill Clinton diz isso, e o Bill Clinton é insuspeito de ser de direita ou de extrema-direita. Portanto, este é um conflito muitíssimo complexo e quando não se sabe o suficiente sobre ele, quando não se leu, quando não se percebe, é muito fácil ter simpatia por aqueles que se percecionam como vítimas. 

Mas a situação em Gaza, e as imagens que de lá nos chegam, não deixam de causar preocupação. 

A situação em Gaza é, sem dúvida, difícil, e sobretudo depois deste conflito, onde houve uma estratégia deliberada de usar civis como escudos. Ao contrário de Israel, que criou um sistema de defesa antiaérea, que tem locais onde a sua população se pode abrigar em casos de ataque, o Hamas construiu uma rede de túneis de 600 km, muito maior que o metro de Londres, que serviu para esconder os seus operacionais, esconder o material militar, esconder os reféns israelitas, e a população nada preocupada.  

Mas voltando à questão das crianças-soldado, que na altura tanto problema causou. Quando nós olhamos para o número de mortes dados pelo Hamas—e aceitando que são verdadeiros—, estamos a falar de 70 mil mortes, o que é um número, obviamente, aterrador. Estamos a falar de vidas humanas, mas a maior faixa são do sexo masculino, e quando nós falamos em crianças, estamos a falar de uma faixa entre os 15 e os 18 anos, porque de acordo com a Convenção de Genebra, até aos 18 anos é-se criança. Acontece que em Gaza, como em todo o Médio Oriente, como em muitos países africanos, os meninos começam a combater aos 11, 12, 13, 14 anos. O Hamas faz isto. Há campos de preparação militares para jovens e adolescentes, há imensa documentação sobre isto. Portanto, nós temos ali, entre o número das crianças mortas por Israel, combatentes. Agora, coloque-se esta questão, é um soldado que vê um adolescente à sua frente com uma Kalashnikov. Está a ver uma criança ou está a ver um combatente? Não são perguntas de resposta fácil.  

Portanto, levar influencers, como foram os jornalistas—é muito interessante ter visto jornalistas a criticar, quando a mesma embaixada de Israel convidou jornalistas que foram exatamente nas mesmas condições a Israel e que visitaram as mesmas coisas que os influencers evitaram. Portanto, não consigo perceber onde é que está aqui a indignação. Parece-me que foi o facto do jornalismo se ter sentido de alguma forma pressionado por serem influencers e por estar a perder aquilo que é o controlo da narrativa. E daí temos estado aqui a discutir, e toda a gente teve de dar a sua opinião sobre estes influencers. Do meu ponto de vista, pôs as pessoas a discutir esta questão e a discutir o terror que são os túneis do Hamas, o sofrimento que os reféns tiveram lá, e eu recordo que nós tivemos reféns que estiveram dentro de jaulas, de jaulas de animais. Tivemos aqueles seis reféns que morreram todos juntos, onde uma delas acabou por morrer com 36 kg de peso. Tivemos reféns que foram torturados, tivemos reféns que foram violados nestes túneis. Portanto, o que os influencers foram fazer foi dar a conhecer um testemunho real e criar aqui um espaço que, infelizmente, a comunicação social não criou.  

Nós vemos a quantidade de crianças israelitas que foram raptadas pelo Hamas, 42 crianças. Vemos os bebés Bibas. O Hamas é o único grupo terrorista que rapta uma criança de oito meses—repito, oito meses—e que é tida como heroica. O que é que aquele bebé de oito meses tinha que ver com colonialismo, com apartheid, com exploração? Nada. Era uma criança, era um bebé. Um bebé que foi morto juntamente com o seu irmão, que foi estrangulado em frente à mãe que depois foi morta também. E depois houve um espetáculo, todos nós nos recordamos e vimos na televisão, quando foi a entrega dos corpos da família Bibas e dos outros corpos todos ao pai. Nós tivemos aqui níveis de crueldade que dificilmente se vêem no outro lado. Portanto, é muito difícil para um israelita, mesmo sendo um israelita de esquerda, mesmo sendo um israelita que jamais votará em Benjamin Netanyahu, perceber o que é que a pessoa aceita ou não.  

Essa distinção que a Helena faz entre Israel, enquanto país, e o governo israelita parece-me fundamental. Considera que essa linha é muitas vezes esbatida por quem, no Ocidente, fez da sua bandeira a destruição do Ocidente—e Israel partilha uma identidade ocidental, sendo a única democracia liberal da região—, com intenções sub-reptícias? 

Volto uma vez mais a Douglas Murray sobre democracias e cultos de morte. Recordo-me quando o Ayatollah, não o Khamenei, mas o Khomeini, foi de Paris no avião da Air France, e que foi saudado pelos intelectuais franceses como sendo um homem que iria trazer a liberdade ao Irão. Portanto, tivemos aqui os grandes pensadores, os grandes intelectuais franceses a saudar aquilo. O [Michel] Foucault, filósofo francês de esquerda, falava numa revolução espiritual para o Irão, que se livraria dos pecados ocidentais, do capitalismo e do materialismo. Recordo-me também de outro autor, Richard Falk, um professor da Universidade de Princeton que na altura escreveu que com Khomeini se esperava que a República Islâmica tivesse uma doutrina de justiça social como componente central, que seria flexível na interpretação do Corão. Toda esta inocência que resultou no casamento entre a esquerda e o islamismo depois veio dar este tipo de frutos. 

Há três acontecimentos, ou três fatores, que levam à aceleração do jihadismo e isto está estudado. O primeiro fator é de calendário, que teve que ver com a mudança para o século 15 no Islão, que tem uma contagem de tempo diferente da nossa. Depois há dois fatores políticos: o primeiro é a revolução iraniana, a revolução islâmica em 1979; o segundo é a jihad anti-soviética no Afeganistão, de onde aparecem os grupos terroristas como a al-Qaeda que todos nós recordamos porque foi responsável pelo 11 de setembro, o maior atentado terrorista que acabou com aquilo que era a inviolabilidade territorial norte-americana e que mudou definitivamente o mundo, inaugurando a época dos grandes atentados terroristas e que nos veio chamar a atenção para o perigo que representa o jihadismo: rejeita a democracia, a legislação humana e aceita apenas aquilo que Deus pode regular. Esta é a interpretação do jihadismo.  

E depois da al-Qaeda nasceu o Daesh, quer na Síria, quer no Iraque. Portanto, quando vimos aqui em solo europeu—os atentados de Londres, de Madrid, o Bataclan o Charlie Hebdo—, vemos que todos estes movimentos estão ligados, tendo na sua génese o Irão, que foi o grande inspirador e o grande patrocinador. Portanto, não é só uma expressão de teor ideológico, de revolução contra o Ocidente, contra os valores ocidentais, contra o capitalismo contra os Estados Unidos, e é este ódio ao Ocidente que une islamistas e parte da extrema-esquerda. 

Essa «aliança problemática» e «profana», nas palavras do ex-primeiro-ministro trabalhista Tony Blair, entre algumas franjas da esquerda e o islamismo radical tem como um dos seus alvos, naturalmente, Israel. Acredita que esta aliança acabou por transformar a crítica—importante e imprescindível—à conduta de um governo numa apologia ao antissemitismo por parte de muita gente com responsabilidades políticas em várias democracias europeias? 

Exatamente, mas isso é muito problemático porque aquilo que nós vemos nas ruas europeias—em Portugal menos, porque mesmo assim ainda não é tão violento como aquilo que vemos noutros países—é precisamente este casamento quase contra-natura entre a esquerda e o Islão, e o aceitarem-se por exemplo práticas culturais que seriam inaceitáveis se estivéssemos a falar de práticas culturais ocidentais. 

Enquanto vejo, por exemplo, mulheres turcas—e tenho muitas amigas que são muçulmanas—a recusarem-se a usar o hijab, ou mulheres tunisinas a recusarem usar o hijab, ou vejo mulheres iranianas a serem mortas por mostrarem o cabelo, depois vejo feministas esquerdistas europeias a solidarizarem-se com as mulheres e a colocarem o lenço. Temos aqui paradoxos que são de difícil compreensão e é de facto o Ocidente quase a autodestruir-se. Portanto, há aqui uma empatia suicida por estes cultos de morte que nos veem a nós—e aqui é preciso ter em conta esta cosmovisão (o jihadismo islâmico só aceita crentes, mas aquilo que eles consideram os verdadeiros crentes, mesmo muçulmanos que não tenham o mesmo tipo de práticas, são considerados infiéis) —como infiéis e, portanto, inimigos. E utilizam aquilo que é ingenuidade, que é a ideologia. 

Neste momento, estamos numa verdadeira guerra de civilizações. E é interessante porque isto tinha sido enterrado. Com a queda do Muro de Berlim, não haveria guerra de civilizações. Mas não, nós estamos em plena guerra das civilizações e o livro do Michel Houellebecq, Submissão, é mais do que nunca uma alegoria atual e demonstra o estado das nossas sociedades. Basta vermos o exemplo do 11 de setembro. Evocámos na sexta-feira passada os 25 anos do 11 de setembro e todos nós, ou pelo menos as pessoas da minha geração, se lembram do que é que estavam a fazer e de como aquele dia mudou o mundo, mudou os Estados Unidos, mudou as nossas perceções daquilo que era o terror, mudou a nossa vida. No entanto, 25 anos depois, temos alguém sentado como mayor de Nova Iorque que tem algumas afirmações bastante problemáticas em relação ao terrorismo islâmico e que é profundamente antissemita. Portanto, temos aqui de facto questões que me levam a pensar “mas o que é que se passa com o Ocidente?” 

E esta questão deve ser feita porque depois temos o backlash. No passado fim de semana tivemos eleições na Alemanha onde vemos um partido de extrema-direita—e este sim de extrema-direita, porque se banalizou o uso do termo extrema-direita—a vencer de uma forma muito expressiva as eleições. Um dos fatores são as migrações, mas não são as migrações portuguesas, polacas, italianas, gregas, turcas. Não, não. É a migração sobretudo de cariz islâmico que descaracterizou completamente a Alemanha, que é responsável por um aumento da criminalidade, que é responsável por um aumento da insegurança e que tem explorado o estado social. Dizer isto não é ser islamofóbico, é ser realista porque isto tudo está documentado nos relatórios policiais, nos RASI’s. Depois vemos aqui o populismo de extrema-direita, bastante perigoso, a aproveitar porque os partidos do arco da governação, os partidos moderados de esquerda e de direita, não fazem nada porque têm medo, estão tolhidos de ser rotulados de xenófobos, de discriminatórios, de islamofóbicos. Curiosamente, ninguém se preocupa em ser chamado antissemita, mas com isto há aqui muito receio.  

Portanto, estamos num momento charneira da nossa história, e é um momento que é muitíssimo preocupante. Sei que isto não é popular, mas creio que devíamos estar a agradecer muitíssimo a Israel. Digo isto por uma razão muito simples: Israel está a travar aquela que é a ascensão do terrorismo islâmico e está aqui a travar uma guerra que é por todos nós. 

Considera que Israel está a fazer o trabalho sujo que o resto das democracias liberais do Ocidente têm medo de fazer, é isso? 

Está a fazer o trabalho sujo, mas é assim: quando se olha para aquela zona do globo, nós tendemos a pôr os nossos óculos europeus, os nossos paradigmas europeus, os nossos valores europeus. Há zonas deste planeta que não funcionam da mesma forma e que não têm as mesmas leis. 

Um dos argumentos dos críticos moderados assenta na ideia de que não podemos esperar de um Estado democrático o mesmo que esperamos de um grupo terrorista como o Hamas. No fundo, há uma tentativa de fazer equivaler moralmente, e em alguns casos até colocando Israel por baixo na hierarquia moral, a reação israelita com a ação levada a cabo pelo Hamas. Como vê esta equivalência? E sendo que a questão das expectativas é, em princípio, razoável, como pode um Estado democrático responder a um agressor que não respeita qualquer lei ou qualquer código sem as defraudar as ditas expectativas, se é que isso é possível? 

Houve uma guerra no Afeganistão e ninguém foi perguntar aos Estados Unidos pelos limites dessa guerra. Recordamos também alguns ataques que França fez na sequência do Bataclan. Eu tenho a certeza absoluta que se este atentado terrorista que ocorreu a 7 de outubro tivesse ocorrido nos Estados Unidos, no Reino Unido ou em França, que tinha havido uma resposta muitíssimo musculada, talvez bastante mais musculada do que aquela que foi dada por Israel, e que ninguém estaria a fazer este tipo de questões. Naturalmente que uma democracia tem deveres para com o direito internacional e tem aqui o dever de limitar aquilo que são as baixas civis e, portanto, conduzir uma guerra o mais limpa possível, se bem que não há guerras limpas. Agora, o que eu aconselharia a quem se interessa por fenómenos de guerra urbana, é que vejam que é um contexto difícil porque temos combatentes que não são um exército regular, vestem fardas de vez em quando, mas misturam-se com civis. Isto está mais do que documentado. Há centros de controlo por baixo de hospitais, por baixo de escolas, por baixo de universidades e membros do Hamas vestidos à civil. Portanto, temos aqui uma utilização extensiva dos civis, se quisermos, como escudo humano. 

Depois, quando vemos o que são as declarações dos elementos do Hamas—vemos declarações de Sinwar, que já não está entre nós, felizmente, que dizia que quanto mais mortos houver, melhor para a causa por que morrem como mártires e pior imagem criam a Israel. Naturalmente que isto não invalida que excessos tenham sido cometidos, e que foram certamente cometidos, e que crimes de guerra tenham sido cometidos pela IDF. Mas em todas as guerras há crimes de guerras. Por exemplo, a maior parte de nós está do lado da Ucrânia, mas a própria Ucrânia, em alguns ataques que faz e que fazem parte da lógica da guerra—não vou entrar aqui nos julgamentos morais—são crimes de guerra. Mas temos aqui, se quisermos, um adversário, um inimigo, que não se importa nada, zero, com a sua população e que a usa como escudo humano, porque os líderes do Hamas, com exceção de Sinwar, viviam todos em Doha faustosamente. Enriqueceram, todos eles eram multimilionários, tinham fortunas de 5 mil milhões de dólares. Portanto, aquele dinheiro da cooperação internacional, o dinheiro que todos nós pagámos, o dinheiro das Nações Unidas, nunca esteve ao serviço do povo palestiniano ou dos habitantes de Gaza, mas esteve ao serviço das fortunas pessoais destas lideranças, porque a corrupção é endémica em Gaza e também na Autoridade Palestiniana, e esses são problemas dos quais raramente se fala. 

Portanto, como se conduz uma guerra com estas características? Como se conduz uma guerra contra um inimigo que usa crianças-soldado? Como se conduz uma guerra contra um inimigo que fez dos reféns israelitas, também aqui, escudos humanos? É muito difícil. Andrew Fox, um investigador britânico, um coronel do exército, e um dos maiores especialistas mundiais em guerra urbana, tem escrito muito sobre isso. Ele fala no rácio de mortos deste conflito, mortos civis e combatentes, e o rácio é um dos mais baixos de sempre. Portanto, se não houvesse esta empolação toda pelo facto de este conflito ser um conflito marcadamente ideológico, onde quem está do lado dos palestinianos está do lado do bem, das vítimas, dos coitadinhos—atenção, eu não estou a dizer que não haja vítimas e que não haja aqui muito sofrimento humano e que não haja muitos inocentes, porque os há, sem dúvida, nomeadamente as crianças, como é óbvio—e que do outro lado está um monstro desalmado, sem coração, não é verdade.  

Uma das coisas que me custou mais foi quando fui a Israel para escrever o meu livro, O Dia que Mudou Israel, e irei agora outra vez para escrever a continuidade, porque o Médio Oriente reconfigurou-se todo depois do 7 de outubro. Quando fui fazer as minhas entrevistas, quando fui visitar os locais e quando fui falar com as pessoas, chocou-me ver muita gente que acreditava na paz, que acreditava na reconciliação, que tinha uma conduta humana digna, que foram chacinados, chacinados. Pessoas que pegavam em crianças palestinianas de Gaza e que eles levavam aos hospitais para tratamentos oncológicos, pessoas que davam emprego aos palestinianos de Gaza, os kibbutzim—que são território israelita, legítimo, reconhecido pelas Nações Unidas—que empregavam palestinianos, que lhes pagavam muito bem, foram mortos por próprios palestinianos a quem eles davam emprego. Como é que se lida com tudo isto? Como é que se lida com o grau de crueldade? Houve cadáveres que demoraram meses a serem reconhecidos porque sobrou uma pecinha de osso, sobrou um dente. Os israelitas precisaram de 10 meses para reconhecer o número oficial de mortos e para reconhecer todos os cadáveres, por isso a mim surpreende-me quando, havendo um ataque israelita, logo a seguir, meia hora depois, diz-se que 100 pessoas morreram num ataque. Mas quem é que lhes foi contar? Como é possível? Depois houve coisas absolutamente astronómicas em relação ao número de vítimas, lançaram-se uma série de notícias, informações, cá para fora, sem comprovação e que, portanto, depois têm consequências na forma como se olha para Israel e para os israelitas. 

Veja-se agora este disparate completo de se querer boicotar o Seinfeld, que vem agora a Portugal a um festival de comédia. Isto depois também tem que ver com a hipocrisia do mundo artístico, com o festival que estava anunciado desde abril. Jerry Seinfeld foi sempre Jerry Seinfeld, judeu e pró-israelita, nunca o escondeu, encontrou-se com as famílias, e bem, dos reféns israelitas. Portanto, tem a posição que tem, conhecida, não era nada de novo. Temos um conjunto de humoristas portugueses, alguns conhecidos, outros ilustres desconhecidos, que aceitaram e, de repente, a poucas semanas do espetáculo, acharam que era ótimo fazerem aqui um stunt público e dizerem que boicotam o Seinfeld. O resultado é exatamente o oposto, os bilhetes esgotam e as pessoas que não iam ao espetáculo, como é o meu caso, acabaram por comprar com um grupo de amigas e vamos todas num boicote contra o boicote cultural.  

É neste grau, se quisermos, de alucinação coletiva de loucura que se discute este conflito e, se me perguntar, eu acho que os palestinianos têm direito ao seu Estado. Têm. Mas os palestinianos têm de perceber uma coisa: têm de aprender, como disse Golda Meir, a amar os seus filhos mais do que odeiam os israelitas e a deixar de usar os seus filhos como instrumentos, como armas, e a acabar com uma coisa que se fala muito pouco no Ocidente, que é o pay for slay. A Autoridade Palestiniana continua a pagar a quem mata israelitas pensões vitalícias, continua a pagar às viúvas de quem mata israelitas. Portanto, temos aqui cultos de morte, cultos de ódio. É incrível quando olhamos para os livros que eram fornecidos pela UNRWA, a Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos. E esta é outra questão, porque que há uma Agência das Nações Unidas para 100 milhões de pessoas que é o ACNUR, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, e temos uma agência específica para 5 milhões de pessoas,com mais recursos do que a agência para 100 milhões de pessoas. Há aqui uma série de incompreensões que se prendem com este conflito.  

Porquê? 

Porque isto é um conflito que permite sempre galvanizar a causa árabe. Amigos meus árabes, muitas vezes quando vou a países árabes, dizem-me que o Médio Oriente é o viagra dos países árabes. Quando há problemas internos, as questões do Médio Oriente, do conflito israelo-palestino, dá um imenso jeito, porque em vez de se virarem para os problemas internos, de se questionarem, não; o ódio, a raiva, a frustração, tudo é direcionado contra Israel. Esta é toda uma outra dimensão do conflito, mas deveria ser possível, e aqui faço um apelo aos jornalistas, para retirar o lado de causa, o lado de emoção, e olhar para isto de uma forma factual, que é aquilo que não está a acontecer com os nossos jornais, e muito menos para quem não lê livros. Tenho centenas de livros, alguns pró-palestinianos, outros pró-israelitas, outros livros académicos. Tento ser o mais balanceada possível, li tudo para ter uma opinião. Quando se procura informação nos TikTok‘s da vida e nos X’s da vida, claro que se cai em desinformação. A quantidade de inteligência artificial que foi utilizada, havia vídeos com neve em Gaza, vídeos com crianças com seis dedos, coisas que a olho nu se reconheciam completamente como mentiras, mas que eram depois muito clicadas e com likes, centenas de milhares de vezes, como é que é possível? É neste nível de desinformação, de iliteracia, que nos encontramos.  

Acabo com propaganda em causa própria. Não sou eu que escrevo o meu livro; são as pessoas que falaram comigo que o escrevem, porque aquilo que eu fiz foi ir ao local, logo a seguir, e ouvir pessoas. Alguns dos relatos que estão aqui são críticos em relação ao governo, outros não são. São testemunhos, e, portanto, aconselhava a leitura, porque me pareceu importantíssimo fazer isto num momento em que eu já sabia que isto ia acontecer, porque quem conhece a história judaica sabe que isto ia acontecer. Haveria negacionistas do 7 de outubro, negacionistas da violência, negacionistas da violência sexual, negacionistas do terrorismo, e houve pessoas que tentaram legitimar como resistência o queimarem-se as famílias vivas, o executarem-se jovens num festival de música, o violarem-se pessoas, o violarem-se mulheres com requintes de crueldade que eu só conhecia dos conflitos africanos, que são absolutamente indescritíveis.  

Quando se desumanizam as pessoas, e os jihadistas são ensinados a desumanizar o Yahud, o judeu, tudo é possível. Algumas das imagens—eu vi o filme de 46 minutos que foi mostrado aos jornalistas, e foi mostrado logo no início, a seguir ao 7 de outubro, mas vi as imagens não editadas do massacre—são aterradoras. Israel perdeu a guerra das perceções porque teve a decência e o pudor de não mostrar estas imagens. Das muitas imagens que vi, há duas que me chocaram particularmente: uma delas é uma imagem em que se vê um trabalhador tailandês, que não é judeu, que não é israelita, que estava ali para aprender agricultura—porque nós sabemos que os israelitas estão muito avançados em termos de agricultura—cuja cabeça está a ser decepada por um dos terroristas. Isto está filmado, foi divulgado, foi público, como é que se faz isto a uma pessoa? A outra é de uma família—este vídeo também foi muito divulgado—em que o pai tem as mãos cheias de sangue da filha mais velha, que foi executada, e vemos a irmã perguntar, “mas ela não volta?”, e depois toda a família foi feita refém. O pai acabaria por morrer em Gaza, os filhos e a mãe sobreviveriam.  

Portanto, foi com este nível de crueldade, de bestialidade, que o Hamas e a jihad palestiniana se dirigiram contra os israelitas, mas dirigiram-se também contra nós. Uma vez mais, vou buscar dados: o último relatório da Europol, que mostra as tendências e as ameaças terroristas na Europa, dá conta que os responsáveis por mais atentados terroristas, e os mais letais, foram grupos jihadistas e que esta ameaça está a crescer. Portanto, é importante olhar-se para estas questões com olhos de ver, livres de ideologia, e olhar para Israel como um país que tem os seus defeitos, como Portugal tem, como a Alemanha tem, como os Estados Unidos têm, mas que é uma democracia funcional, é uma democracia onde há eleições, é uma democracia onde há uma imprensa livre e muitíssimo crítica do governo. Não temos em Portugal meios que são tão livres como, por exemplo, o Haaretz, que é um jornal de esquerda e que faz uma crítica caústica do governo. Não temos um jornal em Portugal que faça este tipo de crítica. Israel é um país onde o tribunal funciona, uma democracia funcional onde há respeito por minorias que não há em mais lado nenhum no Médio Oriente. O Christopher Street Day de Tel Aviv e de outras regiões israelitas é tão livre como é o de Colónia, o de Nova Iorque, ou de São Francisco.  

Portanto, é contra este país que nos tem dado tanto em termos de tecnologia, em termos de tecnologia médica, os nossos telemóveis, o Waze, toda a medicação de combate ao cancro, as evoluções da medicina de trauma, para não falar das questões de cibersegurança, etc, é o país que mais prémios Nobel per capita tem em termos mundiais. Como é possível um país tão pequenino, do tamanho do Alentejo, atrair tanto ódio? Há aqui muito trabalho que foi feito pela União Soviética, ao qual se soma um antissemitismo secular, e nós portugueses e espanhóis também bebemos disso, aliás, quando nos dizem “não sejas mau”, dizem-nos “não sejas judeu”. Portanto, é uma das formas como isto também está entranhado. Como é possível um país destes, que é um país fantástico para quem o conhece, consiga não ter as pessoas a solidarizar-se com ele e ter aqui pessoas contra ele num momento em que sofreu o maior atentado terrorista da sua história? Isto, para mim, é incompreensível.  Como é que há pessoas que se estão a aliar e que estão a defender movimentos terroristas? Como é que houve pessoas que não tiveram piedade dos bebés Bibas? É absolutamente terrorismo.

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