O REBUÇADO DR. BAYARD E O EXEMPLO DA FAMÍLIA MATIAS
O REBUÇADO DR. BAYARD E O EXEMPLO DA FAMÍLIA MATIAS
Por Lígia Pinto de Almeida
Diplomata e Presidente da Beit Rem-Kabod
Há histórias que atravessam o tempo para nos lembrar de que, mesmo nos períodos mais sombrios da humanidade, a solidariedade e a compaixão humana têm o poder de florescer e gerar frutos que alimentam gerações.
A história dos célebres rebuçados peitorais Dr. Bayard, cuja produção está intimamente ligada à cidade da Amadora, é um desses raros testemunhos de fraternidade que merecem ser celebrados e gravados na nossa memória coletiva.
Corria o ano de 1939 quando a Europa se via engolida pelo terror da Segunda Guerra Mundial.
Entre os milhares de refugiados que procuraram em Portugal um porto de abrigo e a promessa de sobrevivência, encontrava-se o Dr. Bayard, um médico judeu francês que trazia consigo pouco mais do que o peso da perseguição e a esperança de um recomeço.
Foi na Baixa de Lisboa que os caminhos deste médico se cruzaram com os de Álvaro Matias, um jovem português com um coração generoso.
Numa época em que estender a mão ao outro exigia coragem, Álvaro Matias e a sua família não hesitaram.
Acolheram o Dr. Bayard, oferecendo-lhe o amparo, a dignidade e a segurança necessárias para atravessar os anos difíceis do conflito mundial.
Esta profunda ligação de amizade culminou num gesto de imensa gratidão:
antes de regressar a França, no pós-guerra, o Dr. Bayard confiou a Álvaro Matias o seu bem mais precioso — uma lata de metal contendo a fórmula secreta de um rebuçado medicinal à base de plantas.
O que começou como uma produção artesanal em 1949 transformou-se, na Amadora, numa marca icónica que faz parte da identidade e do quotidiano dos portugueses.
À família de Álvaro Matias, que com tanto zelo, respeito e mestria deu continuidade ao fabrico e à venda deste rebuçado histórico, endereço o meu mais profundo reconhecimento.
Manter viva esta receita é, acima de tudo, manter viva a memória do homem que a criou e do laço humano que a salvou.
Desejo o maior e contínuo êxito comercial e institucional a esta marca que adoça a nossa história.
Mas o legado do Dr. Bayard não se esgota na excelência do rebuçado peitoral. Ele perpetua-se, de forma exemplar, na responsabilidade social que a empresa hoje desenvolve. É com enorme orgulho e emoção que, em nome do Estado de Israel e enquanto Presidente da Beit Rem-Kabod, expresso o nosso sincero agradecimento pelo extraordinário trabalho social que a marca realiza junto de tantas instituições de solidariedade.
Ao apoiar os mais vulneráveis, a empresa honra o passado e transforma a gratidão que recebeu no século passado numa corrente de bem-fazer no presente.
A história da fábrica da Amadora recorda-nos de que um ato de bondade para com um refugiado pode mudar o destino de uma família e, neste caso, criar um património afetivo para todo um país.
Que o exemplo da família Matias continue a inspirar-nos a construir pontes de apoio mútuo e que o Dr. Bayard continue a ser sinónimo de saúde, história e, acima de tudo, de humanidade.