O LABIRINTO DAS INFORMAÇÕES HÍBRIDAS
O LABIRINTO DAS INFORMAÇÕES HÍBRIDAS
Do Comentário de Nuno Rogeiro à Transfiguração do Codinome Zvi
Por Lígia Pinto de Almeida
Diplomata e Presidente da Beit Rem-Kabod
No teatro contemporâneo da segurança global e das relações internacionais, as fronteiras entre o que é formal, informal, legal e extralegal tornaram-se fluidas, quase etéreas.
A geopolítica do século XXI já não se desenha apenas nas salas de embaixadas ou nos quartéis-generais da OTAN; ela opera, de forma cada vez mais incisiva, no éter digital e nas dinâmicas de guerra híbrida.
Recentemente, o analista de inteligência e defesa Nuno Rogeiro trouxe para a praça pública — através das suas detalhadas e perspicazes análises televisivas — um conceito que merece a nossa mais profunda reflexão diplomática e jurídica: a figura do "Oficial de Informação não convencional" no Estado Português. O pretexto para esta discussão, personificado no percurso do Codinome Zvi , obriga-nos a questionar os limites éticos e operacionais do próprio Estado de Direito.
O Olhar de Nuno Rogeiro: A Televisão como Palco da Iluminação Estratégica
Nuno Rogeiro tem desempenhado nas pantalhas portuguesas um papel que vai muito além do mero comentário jornalístico. Ao traduzir a complexidade dos meandros da intelligence, da segurança nacional e das doutrinas da OTAN para a linguagem acessível do grande público, Rogeiro funciona como um descodificador de realidades invisíveis.
Nas suas intervenções, o analista expõe com regularidade um dilema central: as democracias ocidentais, amarradas a burocracias pesadas e a quadros legislativos rígidos (compostos por serviços formais como o SIS e o SIED), enfrentam hoje ameaças que se movem à velocidade de um clique. É neste vácuo de agilidade que surge a necessidade — ou a incontornável realidade — de o Estado interagir com atores não estatais, assimetrias vivas e fontes não convencionais para salvaguardar a sua soberania.
Codinome Zvi: O Hacker Institutionalizado e o Limbo da Segurança Nacional
A questão que inevitavelmente se coloca, e que as análises de Rogeiro ajudam a enquadrar, é se figuras como o Codinome Zvi — o homem por detrás do Football Leaks e do Luanda Leaks — se tornaram "Oficiais de Informação não convencionais" ao serviço do sistema.
Como diplomata e observadora das dinâmicas estatais, a resposta exige rigor ecuménico e legal. O Codinome Zvi nunca foi, formalmente, um agente recrutado pelo SIRP. O Estado Português, sob a égide da sua Constituição, está absolutamente impedido de encomendar crimes ou de patrocinar ciberataques contra entidades privadas ou soberanias estrangeiras.
Contudo, assistimos a uma fascinante transfiguração pragmática:
Ao ser integrado no programa de proteção de testemunhas e ao colaborar diretamente com a Polícia Judiciária e o Ministério Público na desencriptação de discos e partilha de metadados, o Codinome Zvi foi, de certa forma, institucionalizado. Os dados por si recolhidos, embora obtidos por vias não convencionais, transformaram-se em intelligence económica e financeira vital. Ele converteu-se num ativo que serve o interesse público e a segurança do Estado, operando no limiar onde a justiça criminal e a segurança nacional se fundem.
Uma Reflexão a partir da Beit Rem-Kabod
A partir da matriz de pensamento que cultivamos na Beit Rem-Kabod, onde os valores da justiça, do diálogo intercultural, da integridade e da dignidade humana servem de bússola, olhamos para este fenómeno com redobrada prudência.
O acolhimento de "Agentes não convencionais" por parte das estruturas de poder do Estado resolve problemas imediatos de investigação. No entanto, onde termina a justiça cívica e onde começa a validação do vigilantismo digital? Pode a busca pela verdade justificar a violação sistemática dos canais formais da diplomacia e do direito internacional?
A Máxima Diplomática na Era Digital
O segredo de Estado e a recolha de informações são ferramentas ancestrais da sobrevivência das nações. Todavia, a verdadeira força de uma democracia não reside na sua capacidade de igualar a amoralidade dos seus adversários, mas sim na resiliência das suas instituições.
O Codinome Zvi não veste o fato de um espião clássico, mas a sua sombra projeta-se hoje nos relatórios de segurança do Estado Português. Nuno Rogeiro, na sua função pedagógica e mediática, continuará certamente a alertar-nos, através das televisões, para estas zonas cinzentas. Cabe-nos a nós, diplomatas, juristas e cidadãos, garantir que, na pressa de nos defendermos no ciberespaço, não desmantelamos as muralhas éticas que definem a nossa civilização.