O ESPIÃO, ARAFAT , E O ' SIONISMO IMPERALISTA ': COMO O KGB AINDA HOJE DOMINA O DEBATE PÚBLICO
O Espião, Arafat, e o ‘sionismo imperialista’: como o KGB ainda hoje domina o debate público
Por : Helena Ferro de Gouveia
O livro Horizontes Vermelhos: Crónicas de um Chefe de Espionagem Comunista publicado em 1987 pela editora Regnery é uma obra de não-ficção do Tenente-General Ion Mihai Pacepa, o desertor de mais elevada patente do Bloco de Leste durante a Guerra Fria. Como antigo chefe adjunto do serviço de informações estrangeiras da Roménia, a Securitate e conselheiro próximo de Ceaușescu, Pacepa proporciona-nos um relato na primeira pessoa do estilo de vida luxuoso e dos abusos de poder da liderança comunista, em forte contraste com a pobreza extrema em que vivia a população romena.
Pacepa desertou para os Estados Unidos em 1978. Ao escrever este livro, o seu objetivo era desmascarar o regime e ajudar a provocar a queda da ditadura de Ceaușescu. Quando o livro foi publicado, foi transmitido em episódios pela Rádio Europa Livre e várias cópias foram introduzidas clandestinamente na Roménia comunista. A obra causou um enorme impacto na população e é considerada um dos fatores que contribuiu para a Revolução romena de 1989 e a consequente execução do casal Ceaușescu.
O livro além da visão que nos dá sobre o regime comunista romeno e a cortina de ferro oferece um importante contexto para o entendimento do Médio Oriente e da causa palestiniana. Escreve o antigo espião, «antes de deixar o meu cargo como chefe dos serviços de inteligência romenos para ir para a América, era responsável por entregar a Arafat cerca de 200 mil dólares em dinheiro todos os meses durante a década de 1970. Também enviava dois aviões de carga para Beirute por semana, cheios de uniformes e o que fosse necessário. Outros Estados do bloco soviético fizeram o mesmo. Entregaram-me o ‘dossier pessoal’ do KGB sobre Yasser Arafat. Era um burguês egípcio transformado num marxista dedicado pelos serviços secretos estrangeiros do KGB. O KGB tinha-o treinado na sua escola de operações especiais de Balashikha, a leste de Moscovo, e decidiu, em meados dos anos 60, prepará-lo para se tornar o futuro líder da OLP. Em primeiro lugar, o KGB destruiu os registos oficiais do nascimento de Arafat no Cairo e substituiu-os por documentos fictícios indicando que ele tinha nascido em Jerusalém e que era, portanto, palestiniano de nascimento.
Arafat era um importante agente secreto do KGB. Logo após a Guerra dos Seis Dias de 1967, Moscovo nomeou-o presidente da OLP. Foi o líder egípcio Gamal Abdel Nasser, um fantoche soviético, quem propôs essa nomeação. Em 1969, o KGB pediu a Arafat que declarasse guerra ao ‘sionismo imperial’ americano durante a primeira cimeira da Internacional do Terrorismo Negro, uma organização neofascista pró-palestiniana financiada pelo KGB e pelo líbio Muammar Kadhafi. O grito de guerra imperialista-sionista agradou tanto a Arafat que este afirmou mais tarde tê-lo inventado. Mas, na verdade, o ‘sionismo imperialista’ é uma invenção de Moscovo, uma adaptação moderna dos ‘Protocolos dos Sábios de Sião’, e há muito que é a ferramenta preferida dos serviços secretos russos para fomentar o ódio étnico. O KGB sempre considerou o antissemitismo e o anti-imperialismo como uma fonte abundante de antiamericanismo ...
Em março de 1978, levei secretamente Arafat a Bucareste para que recebesse as últimas instruções sobre como se comportar em Washington. «Basta continuar a fingir que vai romper com o terrorismo e que vai reconhecer Israel - repetidamente», disse-lhe Ceausescu pela enésima vez».
Está tudo nos livros, a interpretação cabe ao meu estimado leitor.
Fonte: Red Horizons: Chronicles of a Communist Spy Chief, 1987, Regnery
