CRIME ,TERRORISMO E NARCOINSURGENCIA : AMÉRICA LATINA ENTRA EM UMA NOVA FASE DE VIOLÊNCIA HÍBRIDA
CRIME , TERRORISMO E NARCOINSURGENCIA: AMÉRICA LATINA ENTRA EM UMA NOVA FASE DE VIOLÊNCIA HÍBRIDA
Total News Agency – TNA
A segurança hemisférica passa por uma transformação profunda: o crime organizado deixou de ser unicamente um negócio ilegal e começou a se comportar, em vários países da América Latina, como um ator armado com capacidade de disputar território, impor regras, infiltrar instituições e utilizar táticas próprias da guerra irregular.
Um relatório regional sobre crime organizado e terrorismo na América Latina, centrado em março de 2026 e elaborado a partir de fontes abertas, adverte que as fronteiras clássicas entre narcotráfico, insurgência, terrorismo funcional e governança criminal estão se diluindo.
O documento analisa três casos críticos — México, Colômbia e Equador — e conclui que a região já não enfrenta apenas redes delitivas voltadas ao lucro, mas estruturas híbridas capazes de desafiar o Estado nos planos operacional, institucional e psicológico.
O diagnóstico coincide com o Global Terrorism Index 2026, elaborado pelo Institute for Economics & Peace, que registrou durante 2025 uma queda global de 28% nas mortes por terrorismo e de 22% nos ataques.
Mas essa diminuição não significa o desaparecimento do fenômeno: o terrorismo tornou-se mais concentrado, mais letal em determinados espaços e cada vez mais vinculado a zonas fronteiriças onde confluem conflitos armados, economias ilícitas e fragilidade estatal.
Nesse novo mapa, a América Latina não aparece como epicentro do terrorismo global clássico, ainda concentrado na África subsaariana e em regiões de conflito jihadista, mas sim como laboratório de uma violência híbrida.
Nela, organizações criminosas, grupos armados residuais, facções penitenciárias e redes transnacionais misturam métodos terroristas com objetivos econômicos: matar para intimidar, bloquear cidades para negociar, usar drones para atacar bases militares, infiltrar policiais para garantir impunidade e controlar bairros ou rotas como se fossem territórios próprios.
O caso do México expõe a resiliência das organizações criminosas diante da estratégia de "decapitação".
A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, vulgo "El Mencho", líder do Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG), em fevereiro de 2026, foi apresentada como um golpe histórico.
No entanto, a reação posterior mostrou que a eliminação de um chefe não implica necessariamente o colapso da estrutura.
Segundo o relatório, o CJNG respondeu com bloqueios, incêndios, ataques simultâneos e uma demonstração de força em múltiplos estados, o que revelou capacidade de coordenação, coerção territorial e comunicação violenta.
A organização não apenas conservou o poder de fogo, mas também redes financeiras e vínculos de corrupção.
Após a morte de El Mencho, as autoridades mexicanas encontraram documentação conhecida como a "narconómina" (folha de pagamento do narcotráfico), com pagamentos a sicários, operadores, policiais, militares, promotores e funcionários públicos.
Esses registros confirmaram que o poder do cártel não dependia unicamente de suas armas, mas de uma rede de proteção institucional que lhe permitia antecipar operações, manter rotas e comprar impunidade.
O fenômeno responde ao chamado "efeito hidra": quando cai uma cabeça, surgem outras. A morte ou captura de um líder pode fragmentar a organização, mas também gerar células mais autônomas, menos visíveis e mais difíceis de neutralizar. Para o México, o dilema é estratégico. Se o Estado golpeia com força, pode provocar represálias. Se reduz a pressão, permite a reorganização criminal.
Em ambos os casos, a corrupção local funciona como um multiplicador do poder do narcotráfico.
Na Colômbia, o relatório identifica outra manifestação do mesmo problema: a consolidação de uma narcoinsurgência adaptável.
O ELN e as dissidências das FARC combinam discurso político, financiamento criminal, controle territorial e capacidades militares crescentes.
A novidade mais preocupante é a expansão dos ataques com drones.
Segundo relatórios vinculados ao Global Terrorism Index 2026, entre 2024 e 2025 a Colômbia registrou 77 ataques com drones armados, uma tendência inédita na região e atribuída ao aprendizado tático derivado de outros conflitos, como a guerra na Ucrânia.
O uso de drones comerciais adaptados para lançar explosivos muda a escala do conflito. Já não se trata apenas de emboscadas, fustigamentos ou minas antipessoal. Os grupos armados podem atacar bases militares, postos policiais, patrulhas e alvos rivais com baixo custo, distância operacional e elevado efeito psicológico.
Em junho de 2026, comandos militares colombianos advertiram que enfrentam drones com granadas e sistemas guiados por cabo, o que confirma uma sofisticação acelerada das ameaças.
A dimensão humanitária é igualmente grave. O relatório aponta que, durante o primeiro trimestre de 2026, foram registrados deslocamentos massivos, confinamentos e sequestros vinculados às ações de grupos armados. As regiões mais afetadas incluem Cauca, Nariño, Norte de Santander, Arauca, Antioquia e zonas fronteiriças com o Equador e a Venezuela.
Ali, a violência não busca apenas eliminar rivais: também ordena a vida cotidiana, impõe toques de recolher de fato, regula economias ilegais e obriga comunidades inteiras a viver sob a autoridade criminal.
No Equador, a mudança foi mais abrupta. O país passou de ser considerado por anos um corredor logístico relativamente estável a se tornar um território disputado por facções locais, redes internacionais de narcotráfico e estruturas penitenciárias com capacidade de ordenar violência de dentro das prisões. O relatório destaca que, apesar de uma leve diminuição nacional de homicídios em janeiro e fevereiro de 2026, o país registrou 1.427 assassinatos nos dois primeiros meses do ano, com Guayaquil como epicentro da violência e um aumento incomum em Quito.
O governo de Daniel Noboa respondeu com uma estratégia de militarização. Em março, decretou toque de recolher noturno em Guayas, Los Ríos, El Oro e Santo Domingo de los Tsáchilas, medida que afetou uma parte importante da população e fez parte de operações conjuntas contra estruturas criminosas. A Reuters informou que a medida buscou respaldar operações militares e policiais em províncias utilizadas como rotas do narcotráfico.
A ofensiva equatoriana incluiu golpes contra acampamentos vinculados a dissidências das FARC, interdições marítimas com apoio dos Estados Unidos, destruição de garimpos ilegais e acordos de cooperação com a Europol. O relatório menciona uma operação naval conjunta na zona de Galápagos, com a apreensão de 2,9 toneladas de cocaína, e a ratificação de mecanismos de intercâmbio de inteligência para combater o crime transnacional.
Mas a raiz do problema equatoriano também se encontra em suas prisões. O sistema penitenciário se transformou em centro de comando criminal. Facções como Los Choneros, Los Lobos, Tiguerones e outras organizações disputam pavilhões, recrutam, ordenam assassinatos e coordenam operações para o exterior. Segundo o relatório, mais de 420 presos foram assassinados desde 2021 em massacres prisionais, o que mostra que as prisões deixaram de ser espaços de reclusão para se tornarem nós de poder mafioso.
Os três casos mostram um padrão comum. No México, o cártel sobrevive à morte de seu chefe. Na Colômbia, a insurgência residual se financia com economias criminosas e adota tecnologias de guerra.
No Equador, as facções se internacionalizam e convertem prisões, portos e corredores costeiros em plataformas de poder.
A lógica já não é apenas traficar drogas, mas controlar territórios, disciplinar populações e condicionar decisões estatais.
Esse fenômeno obriga a revisar as respostas tradicionais. A segurança pública clássica, baseada em patrulhamento, prisões e apreensões, mostra-se insuficiente diante de organizações que operam como redes flexíveis, com inteligência própria, corrupção institucional, armamento pesado, drones, explosivos, controle social e capacidade de propaganda.
Tampouco basta uma resposta puramente militar se não for acompanhada de depuração institucional, inteligência financeira, controle penitenciário, cooperação internacional e recuperação efetiva do Estado em territórios abandonados.
O relatório propõe monitorar indicadores de alerta precoce: frequência de narcobloqueios, homicídios em zonas críticas, surgimento de novas facções, uso de drones ou explosivos, ataques contra forças de segurança, aumento de extorsões, novas revelações de corrupção, disputas entre grupos rivais e pressão internacional.
Esses indicadores permitiriam antecipar se a região caminha para uma contenção relativa, uma escalada aberta ou uma mutação silenciosa em direção a redes criminosas mais descentralizadas.
A conclusão é desconfortável: a América Latina já não pode olhar para o crime organizado como um desvio policial, nem para o terrorismo como um fenômeno importado de outras regiões.
Em vários territórios, os dois mundos se tocaram. As organizações criminosas aprenderam a usar o medo como linguagem política, a violência como negociação, a corrupção como blindagem e a economia ilegal como base de governança.
A segurança hemisférica entra assim em uma etapa mais complexa. A ameaça nem sempre tem bandeira, ideologia ou manifesto. Às vezes tem portos, prisões, drones, contadores, policiais comprados e células armadas capazes de impor uma soberania criminal em zonas onde o Estado chega tarde ou simplesmente não chega. Esse é o novo desafio estratégico da região.