A CRIMINALIDADE ORGANIZADA TRANSNACIONAL (COT)COMO UM FACTOR DE DESESTABILIZAÇÃO MUNDIAL



A CRIMINALIDADE ORGANIZADA TRANSNACIONAL (COT) COMO UM FACTOR DE DESESTABILIZAÇÃO MUNDIAL


Por : Jorge Gómez , Agente (R) Centro Nacional de Inteligencia ( CNI ) Espanha 

Falamos e escrevemos constantemente sobre o novo panorama mundial, sobre as guerras, as ações híbridas, a tensão entre novos blocos, o reposicionamento do poder mundial em geral, a nova distribuição dos recursos naturais — que agora são diferentes dos necessários há 50 anos, uma vez que a indústria em desenvolvimento é distinta e necessita de outros materiais. Falamos e escrevemos muito sobre guerras e, lamentavelmente, esquecemo-nos de um fator determinante para a segurança mundial: o constante crescimento da Criminalidade Organizada Transnacional, um crescimento na sombra, tendo a corrupção como elemento primordial. O chefe de qualquer grupo criminoso obedece apenas a uma lei com três normas básicas: "Compro-o, corrompo-o ou elimino-o".

​O crescimento da Criminalidade Organizada não é um fenómeno isolado, não é algo que tenha aparecido por acaso; é fruto de anos de infiltração na sociedade, de um trabalho realizado por parte destes grupos para corroer a nossa estabilidade e converter-nos em sociedades muito mais fracas, onde se evidencia um fosso entre o desenvolvimento económico, a estabilidade política e a capacidade das instituições para manter a ordem perante a atividade destes grupos criminosos. E ao efeito desestabilizador das ações destes grupos, temos de somar, evidentemente, a degradação da política atual, sendo constantes os casos de corrupção institucional e o aparecimento de cargos políticos com perfil e ações de delinquente. Poderíamos utilizar aquela citação popular que define esses indivíduos dizendo: "Tu põe-me onde ele [o dinheiro] houver, que de o levar encarrego-me eu".

​Não podemos atribuir o crescimento da atividade dos grupos de COT a um único motivo; seria um erro, pois encontramo-nos perante um fenómeno multifacetado, como quase todos os processos deste tipo, embora, evidentemente, alguns motivos apresentem sempre uma importância maior que outros.

​A queda do Muro de Berlim e o posterior colapso da União Soviética foi algo que, neste terreno, nos apanhou de surpresa, como quase tudo o que é importante. Que aquilo significava uma mudança no panorama geopolítico era evidente, mas ninguém analisou como óbvio que seria um elemento catalisador na expansão mundial da COT. A queda do Muro significou também o desaparecimento da fronteira física entre Oriente e Ocidente e que os grandes barões do crime, antes encapsulados nos seus territórios, pensassem agora que era o momento ideal para se expandirem por todo o mundo.

​Os grupos criminosos da Europa de Leste, que englobamos erroneamente na denominação de Máfia Russa, cresceram e ampliaram as suas atividades a outros lugares do planeta. Nos primeiros momentos, foram constantes as reuniões, em diferentes países — incluindo a Península Ibérica —, nas quais os grandes chefes repartiam o controlo territorial e expandiam as suas atividades delituosas, que quase sempre se resumem ao tráfico de pessoas, drogas e armas, branqueamento de capitais através de redes empresariais legais e crimes financeiros, utilizando o assassinato como uma ferramenta habitual nas suas atividades.

​A questão importante é que aquele momento não foi apenas interpretado como positivo pelas máfias do Leste Europeu; as máfias do resto do mundo, como as italianas e outras organizações criminosas europeias, também compreenderam que era um bom momento para se expandirem para Leste e começaram a trabalhar, sobretudo em território da Alemanha Oriental, persistindo a sua presença três décadas depois daquele momento inicial e representando um problema muito importante para a Alemanha atual. Mas não foram apenas eles os afetados; também a COT japonesa moveu os seus tentáculos, a chinesa e, claro, os grupos da América Latina. Foi como uma expansão em que todos, como se de um campo de batalha se tratasse, se instalavam em terrenos que antes pertenciam a outros.

​Um elemento também de vital importância é a Globalização, permitindo o fluxo de população entre continentes e a importação, nos países mais industrializados e avançados, de uma população disposta a trabalhar para melhorar as suas condições de vida, juntamente com outros elementos cujo objetivo é instaurar as condições adequadas para que os seus grupos possam operar, passando a controlar partes de cidades a partir das quais iniciam as suas atividades delituosas. Foram tomando o controlo de zonas em diferentes países e estabelecendo a sua lei. Isto é favorecido por uma distribuição desigual da riqueza em todo o mundo, mas sobretudo nos seus países de origem. Esta desigualdade e falta de oportunidades gera zonas marginais onde o recrutamento de jovens para grupos criminosos, ou para grupos terroristas (no caso dos grupos islamistas radicais), se torna muito fácil. Uma juventude sem futuro nem esperanças é uma juventude perdida e desorientada e eles, os criminosos, estão firmemente interessados em que isto continue assim, que este continue a ser o seu pesqueiro mais importante.

​Na América Latina poderíamos afirmar que se produziram algumas mudanças importantes nas atividades dos grupos criminosos como, em primeiro lugar, a atomização das suas atividades, gerando múltiplos grupos derivados daquelas grandes famílias criminosas ou clãs iniciais, prejudicando ainda mais o controlo das suas atividades. Em segundo lugar, produziu-se uma diversificação dos negócios em que entram os grupos criminosos, resultando agora muito maior do que antes e muito mais lucrativa.

​Em terceiro lugar, a disponibilidade de maiores receitas e o facto de terem aprendido lições do passado fez surgir líderes que em nada se assemelham a Pablo Escobar ou Sito Miñanco (pertencente a essa Criminalidade Galega tão silenciosa e pouco mencionada no mundo, embora a sua participação no narcotráfico seja muito relevante). Em suma, os novos líderes já não são pessoas incultas que se dedicavam a acumular dinheiro sem sequer saber como geri-lo, acumulando propriedades de todo o tipo que tornavam evidente a sua atividade criminosa perante as forças de segurança; agora estamos perante pessoas com aparência e atividade de empresários e com um grau de ocultação e anonimato muito elevado, o que dificulta as tarefas de investigação e, cada vez mais, permite a imputação de crimes económicos com penas muito baixas, mas dificulta a imputação de crimes relacionados com a atividade própria do tráfico de estupefacientes.

​E, em quarto lugar, a expansão das atividades destes grupos acabou com aquelas zonas que se encontravam livres deste flagelo. Hoje, os mercados ilegais estão presentes em todas as zonas do mundo e em todos os países que possamos imaginar. Devemos ter em conta que, à medida que alguns lugares são identificados pelas forças de segurança como locais de procedência de narcotráfico, os grupos criminosos procurarão outros territórios para transitar com a sua mercadoria, expondo-os de imediato à lei do crime.

​No que toca à Península Ibérica, esta maravilhosa zona onde dois países irmãos, Portugal e Espanha, com índices de criminalidade dos mais baixos do mundo, acabam por ter quase sempre problemas semelhantes. Espanha tem um problema evidente de narcotráfico, centralizado tanto na parte sul como na parte norte do país (especialmente na Galiza), presença de máfias do Leste e de outras zonas do mundo na zona da costa mediterrânica (da Andaluzia à Catalunha) e um problema de corrupção política muito grande que afeta a nossa imagem como país, tanto perante os nossos cidadãos como perante a visão internacional que transmitimos. Portugal tem também problemas de narcotráfico e concentra como zonas de alto risco Lisboa e Porto, pela sua concentração populacional e pelo turismo que recebem durante todo o ano. Somente no ano de 2025 produziu-se um incremento do tráfico de haxixe muito importante. No caso dos nossos vizinhos, o seu Relatório de Segurança Nacional assinala como necessidade para a realização de ações coordenadas a segurança energética e a gestão das infraestruturas críticas, bem como a importação de armas.

​Seguramente os nossos vizinhos portugueses "puseram o dedo na ferida", porque o que não vemos em nenhum relatório de especialistas na matéria é a utilização, por parte de alguns governos, especialmente a Rússia e o Irão, dos seus grupos criminosos para que executem ações contra as nossas infraestruturas, sabotagens ou assassinatos seletivos, dentro desta dinâmica atual de guerra híbrida e ações na zona cinzenta. No que toca ao Irão, temos de ter sempre presente a sua utilização de grupos terroristas islâmicos com a possibilidade de perpetrar atentados terroristas em todo o mundo.

​É condição inescusável que Espanha e Portugal mostrem às diferentes máfias, procedentes de Angola, do Leste ou de onde quer que venham, que este é o nosso território, que aqui impera a lei e a ordem, que lutaremos juntos contra eles e que queremos um mundo para os nossos filhos no qual eles não tenham presença. Se não nos preocuparmos em que isto aconteça, teremos um problema de futuro muito grave e, sem dúvida, veremos um mundo pior do que o que temos hoje em dia. São um flagelo que vai crescendo e que tem de ser eliminado pela raiz.

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