JIHADISTAS PORTUGUESES USAM PLATAFORMAS DIGITAIS
Valentina Marcelino
Toda a história dos jihadistas portugueses. Os códigos, a vida, as paixões e os ódios
Dos oito portugueses acusados, um está já detido em Portugal e outro sujeito a termo de identidade e residência.
Há seis "em paradeiro desconhecido", dados como mortos pelas autoridades. Deixaram dor nas suas famílias e cerca de 20 filhos que estarão em campos de refugiados na Síria.
A abrir o despacho de acusação, a que o Hagana Israel System teve acesso, o Ministério Público (MP) sublinha que "pela primeira vez, num processo-crime, através da investigação sistemática ao longo de seis anos, foi possível descrever e reconstruir, do ponto de vista criminal, mas também histórico e sociológico, a radicalização organizada de um grupo de indivíduos de nacionalidade portuguesa e a sua deslocalização para a Síria, com as suas mulheres e filhos, a fim de integrarem as fileiras do Estado Islâmico e cumprirem a jihad".
Todos os oito portugueses - Nero Saraiva, os irmãos Celso, Edgar e Rómulo Costa, Fábio Poças, Sandro Marques, Sadjo e Cassimo Turé - estão acusados dos crimes de adesão e apoio a organização terrorista, recrutamento para terrorismo internacional e financiamento de terrorismo.
Destes oito, seis estão "em paradeiro desconhecido", dados como mortos pelas autoridades. Em relação aos outros dois, Rómulo Costa está detido em Portugal, enquanto Cassimo está sujeito a termo de identidade e residência (TIR).
Eis toda a história, na versão do MP:
Os oito acusados
1- Nero Saraiva (33 anos), com alcunhas e nomes árabes Rashid, Gordo Abdul Rashid, Abu Yacub, Abu Yakhoub Al Andaloussi. Morada em Portugal: Massamá.
Nasceu em Angola, filho de uma família católica, muito religiosa. Entre os 9 e os 15 anos foi viver e esteve como interno numa instituição católica de Aveiro, onde foi batizado e fez a primeira comunhão. Aqui tinha a alcunha de "Imperador".
Emigrou depois para Inglaterra com a mãe e foram viver para Leyton, um distrito de Londres onde reside uma das maiores comunidades muçulmanas de Inglaterra.
O local daria depois o nome ao grupo de jihadistas portugueses que tinham emigrado da linha de Sintra - célula de Leyton.
Nero casou-se, teve um filho e divorciou-se pouco tempo depois de ter sido pai, em 2007, com apenas 21 anos. Passado cerca de um ano, com 22, converteu-se ao islão. Conheceu, entretanto, os portugueses Sadjo Touré e os irmãos Edgar e Celso Costa, recém-chegados a Londres. A estes juntaram-se depois Sandro "Funa" Marques e Fábio Poças.
Na Síria, Nero casou-se depois com três mulheres: Amina, britânica, de quem teve dois filhos; Heidi, natural da Holanda e com nacionalidade finlandesa; Ângela, de origem portuguesa e nacionalidade holandesa, que viajou para a Síria . São-lhe atribuídos um total de dez filhos.
Em meados deste ano, Nero Saraiva foi preso pela coligação de milícias curdas e árabes SDF (Syrian Democratic Forces), no decurso da tomada de Baghouz, último reduto da organização terrorista Estado Islâmico, no norte da Síria, por ser membro da organização terrorista Estado Islâmico.
Em setembro, a agência noticiosa curda ANF News difundiu uma entrevista a Nero, na qual este contou todo o seu trajeto no Estado Islâmico (EI), desde a sua chegada até à sua captura.
2 - Sadjo Turé (40 anos), com alcunhas e nomes árabes Xamanti, Xá, Chá, Shá, Picadas, Picoso, Abdul Kareem, Abdullah Al Portugal, Abubakar al Portugal, Sajid Tawriyah, Manullo Dijoura, Abu Bawsha Al Burtughali. Morada em Portugal: Massamá.
3 - Cassimo Turé (44 anos), com alcunhas Guedes e Laço. Morada em Portugal: Massamá.
Os irmãos Turé nasceram na Guiné-Bissau.
Vieram para Portugal em 1986 e foram primeiro residir na Buraca. São muçulmanos.
Sadjo foi viver para Londres, seguindo-se depois em 2005/2006 o irmão Cassimo.
Viviam juntos até Sadjo se casar com uma portuguesa que se tinha convertido ao islão.
Sadjo Turé (juntamente com Celso da Costa) foi suspeito, no Reino Unido, de autoria do rapto dos jornalistas John Cantlie e Jeroen Oerlemens, na fronteira turco-síria.
E foi a partir daqui que ficaram no "radar" das autoridades britânicas, que avisaram a polícia portuguesa.
Sadjo casou-se com Zara Iqbal, britânica de origem paquistanesa. Tiveram três filhos: Yusha (7 anos), que nasceu na Tanzânia; Yunus (6 anos) e Asya (4 anos), nascidos na Síria.
4 - Edgar Costa (36 anos), com alcunhas e nomes árabes Fubas, Cydas, Batman, Bafo, Franky Pain, Abuzakarya, Abubakar, Abu Zakarya al Andalus. Morada em Portugal: Massamá.
5 - Celso Costa (33 anos), com alcunhas e nomes árabes Stone, Crebas, Sherif, Issa, Abu Isa Al Andalus, Abu Issa Al Andalusi. Morada em Portugal: Massamá.
6 - Rómulo Costa (40 anos), com alcunhas Binas, Romy, Rominho, Romny Fansony. Morada em Portugal: Massamá. - Detido pela Polícia Judiciária.
Os três irmãos Costa cresceram em Massamá, Sintra. Jogavam futebol e dançavam breakdance, rap e hip-hop. Frequentaram a Escola Secundária Stuart Carvalhais, na mesma localidade. Foram colegas de Sandro "Funas" Marques.
Não tiveram em Portugal qualquer atividade remunerada. A sua rotina resumia-se aos jogos de futebol e à preparação física em ginásios de musculação. Não tinham qualquer ligação à comunidade muçulmana nem tinham por hábito frequentar locais de culto.
Mesmo assim, já depois de se terem convertido, em deslocações a Portugal, há registos de terem ido à Mesquita Central de Lisboa, para orações à sexta-feira, como, por exemplo.
Edgar licenciou-se em Gestão e Contabilidade, no Porto, tendo de seguida emigrado para Londres para continuar os estudos universitários.
Foi viver para Leyton, onde já estava Nero Saraiva, e começou a frequentar a Mesquita de Forest Gate. O irmão Celso juntou-se-lhe.
Rómulo Costa estava em Londres , era produtor de música, com o nome artístico de Romy Fansony.
Celso Costa, juntamente com Sadjo Turé, foi suspeito, no Reino Unido, da autoria do rapto dos jornalista John Cantlie e Jeroen Oerlemens, na fronteira turco-síria. Celso casou-se com Reema, britânica de origem paquistanesa, de quem tem dois filhos, Ibraheem (6 anos) e Musa (4 anos). Casou-se depois na Síria, também com Sabina, de nacionalidade alemã, de quem teve mais um filho, Ayesta (3 anos), e com Seri, uma indonésia, de quem teve outro filho, Suleiman (2 anos).
Edgar casou-se com Fatuma, tanzaniana, de quem teve três filhos: Zakarya (6 anos), Miriam (4 anos) e Yahya (3 anos).
7 - Fábio Poças (27 anos), com alcunhas e nomes árabes Tong Po, Dragão Vermelho, Red Dragon, Abdu Rahman Al Andalus, Abu Khadija Al Andalus, Abu Khadija Al Badri, Abo Khadija al Qurtobi. Morada em Portugal: Mem Martins.
Emigrou para Londres aos 19 anos e foi ao encontro dos irmãos Costa, seus amigos. Tinha como objetivo estudar artes e tornar-se jogador de futebol profissional. Tal como Nero, os irmãos Costa e Sandro "Funas" Marques, converteu-se também ao islão.
Em outubro foi abordado pelas autoridades policiais britânicas, no aeroporto de Luton, em Londres, quando se preparava, juntamente com a sua mulher, a britânica Ruzina, para viajar para Lisboa.
A Polícia britânica apreendeu-lhe um computador portátil, cinco telemóveis e cerca de 2600 libras esterlinas. Viajou depois de Londres para Faro, e não para Lisboa, para "iludir as autoridades policiais".
Fábio casou-se com Ruzina, britânica, de quem teve uma filha , ainda no Reino Unido - Noor (5 anos).
Ainda tentou que ela fosse para a Síria, mas esta recusou. Relata o MP que Fábio "acusou a mulher de não querer viver segundo a sharia, querendo dizer o direito islâmico, mas sim de forma ocidental, e disse-lhe que por isso iria casar-se novamente e ter outros filhos".
Foi para a Síria , casou-se lá com Ângela, de origem portuguesa e nacionalidade holandesa, que também tinha sido casada com Nero Saraiva. Tiveram um filho.
8 - Sandro Marques (45 anos), com alcunhas e nomes árabes Funas, Primeiro, Primo, Mohamed, Mohames Awal, Abu Yaninah Al Portughal. Morada em Portugal: Monte Abraão.
Sandro casou-se com Mayubonwe Sibanda e tiveram uma filha, Yaminah (7 anos). Celso, Edgar, Fábio, Sadjo, Sandro e Nero tiveram um total de 20 filhos e há pelo menos três com bilhete de identidade português, embora, segundo o MP, estejam caducados.
À exceção dos irmãos Turé, que já eram muçulmanos, o restante grupo são muçulmanos convertidos, de corrente sunita, com convicções político-religiosas extremistas.
Esta acusação é assinada pelos procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) Vítor Magalhães, João Valente e Cláudia Porto, e é a conclusão de uma investigação de seis anos, coadjuvada pela Unidade Nacional de Contraterrorismo da Polícia Judiciária, a partir de um alerta Israelita e das autoridades britânicas. Em sede de cooperação internacional, foi comunicado o envolvimento e dois indivíduos de nacionalidade portuguesa, Celso Costa e Sadjo Turé, no rapto dos jornalistas John Cantlie, britânico, e Jeroen Oerlemens, holandês, que o acompanhava.
Os membros da célula de Leyton tinham já aderido, em Londres, a movimentos fundamentalistas islâmicos, "defendendo-os, glorificando-os e assumindo-se como seus representantes ativos".
Nessa altura, Nero, Sadjo e os irmãos Edgar e Celso viajaram para a Tanzânia, "onde frequentaram campos de treino de combate de grupos fundamentalistas islâmicos com ligações à organização terrorista Al-Shaba".
Edgar tornou-se instrutor.
Dali, Nero seguiu para o Sudão, depois para a Turquia e de seguida para a Síria, juntamente com Edgar Costa.
Juntaram-se a grupos salafistas que combatiam o regime sírio liderado por Bashar al-Assad.
Nero juntou-se a Abu al-Absi, que esteve por trás de uma onda de sequestros de ocidentais na Síria. Integrou a chamada Brigada dos Emigrantes e começou por ser sniper do batalhão. Subiu depois a comandante e ficou encarregado de registar os recrutados que chegavam da Europa. Nero Saraiva é conhecido, internacionalmente, como membro próximo do grupo de britânicos conhecido por Os Beatles, cujo líder era Mohammed Emwazi (mais conhecido por Jihadi John), responsável pela tortura e pela execução de reféns ocidentais.
Sadjo e Celso foram à Síria , com as respetivas mulheres. Sadjo passou a fronteira turca em abril desse ano, exibindo o passaporte português, e saiu em agosto. O seu filho Yusha foi registado, nesse ano, na Secção Consular da Embaixada de Portugal, em Ancara, na Turquia.
Em agosto de 2012, com exceção de Nero Saraiva, todos regressaram com as mulheres à Europa. Diz o MP que o objetivo era "obterem meios financeiros e aliciarem mais combatentes, em Londres, para integrar a organização terrorista e cumprirem a jihad na Síria". Nesta altura, estavam já radicalizados e, quando regressaram a Portugal, "delinearam uma estratégia conjunta que lhes permitisse regressar, com as respetivas famílias, à Síria, a fim de se juntarem à organização terrorista a que pertenciam".
Todos menos Cassimo e Rómulo, que nunca quiseram ir para a Síria. Mesmo assim, Cassimo Turé "assumiu um papel relevante no financiamento do grupo, nomeadamente o recebimento de quantias monetárias, distribuição por outros arguidos e guarda do suporte de ficheiros relacionados com o esquema ilegal para obtenção de subsídios praticado, em Londres, por Sadjo".
Assumiu, também, segundo o MP, funções de apoio em Portugal a indivíduos aliciados e recrutados para se deslocarem para a Síria. A partir de 2014, considera o MP, o grupo da célula de Leyton passou a integrar a organização terrorista Estado Islâmico.
O grupo da linha de Sintra "conhecia as rotas, o terreno e os facilitadores na Turquia e na Tanzânia. Nesse contexto, aliciaram, recrutaram, financiaram e apoiaram logisticamente a deslocação de cidadãos britânicos e portugueses para a Síria". Utilizaram o território nacional "como base de apoio aos recrutados e a todos os que se iam juntando ao grupo".
Sadjo, por exemplo, "aliciava e convencia os jovens britânicos em Londres e enviava-os para Lisboa".
Edgar Costa, Sandro Marques e Cassimo Turé "acolhiam-nos em Portugal, providenciavam todo o apoio logístico, até se encontrarem reunidas as condições financeiras e logísticas para viajarem até à Turquia e depois até à Síria".
Nero Saraiva, por seu turno, "assegurava toda a logística necessária para recolher, na Turquia, os que ali chegavam e, recorrendo a facilitadores locais ou militantes do grupo jihadista terrorista a que pertencia, assegurava a sua passagem, pela fronteira Turca, para a Síria".
Depois do alerta dos Israelitas e britânicos, as autoridades portuguesas tinham-nos sob vigilância e escutas.
No despacho de acusação são transcritas dezenas de conversas que o MP entendeu constituírem provas da sua adesão e envolvimento com os terroristas do Estado Islâmico, quer em recrutamentos quer em treinos, combates e financiamento.
Nas escutas a Edgar, são descritas "matanças", fala-se da "guerra" e em "limpar mais uns quantos".
Edgar contou a Rómulo que Celso teria pedido que lhe distribuíssem uma arma de fogo automática, mais pesada e com grande capacidade de carregamento de munições, "que tem logo duzentas lá dentro." Rómulo perguntou se Celso teria "força para aguentar com o peso da arma" e Edgar respondeu que "o disparo da arma não provocava muito impacto, que pesava somente sete quilos".
Edgar explicou que "aquele tipo de arma servia para fazer um primeiro varrimento, tiro de barragem e que depois seguiam-se os combatentes mais rápidos, com armas de fogo automáticas ligeiras, para se aproximarem e envolverem rapidamente o inimigo".
Ao telefone, Sadjo comentou com Edgar Costa que o irmão Celso, que estava na Síria, tinha sido escolhido para "limpar um cão porco capturado", depois de o julgarem, querendo dizer executar um prisioneiro não muçulmano.
As autoridades portuguesas registaram que Nero Saraiva exibiu, na rede social Facebook, uma fotografia com Celso Costa, "ambos vestindo uniformes de combate (camuflados), ostentando material de comunicações e carregadores de armas automáticas, altura em que já se encontravam os dois na Síria".
Sadjo Turé e Sandro "Funas" Marques conversaram ao telefone para combinarem a viagem para a Síria deste último e da sua mulher e da filha.
Sadjo tentava sossegar Sandro sobre o apoio que teria, na Turquia, de facilitadores conhecidos daquele, que iriam guiá-lo até à Síria, referindo: "Não te preocupes, que eu falo com o dread, e o dread vai-te apanhar, não te preocupes, isso já é comigo.
O gajo vai-te dar o meu número, quando chegares ele liga para falares comigo até ao final. Eu falo com ele. O gajo é um dread fixe. Mal sabe que estás ali, apanha-te logo.
Lembra-te que ele apanhou esses gajos, o Tong Po [referindo-se a Fábio Poças], e esses gajos todos, é na boa, é na boa. O gajo é profissional."
Fábio Poças publica uma fotografia sua no Facebook com uma espingarda automática AK47 - Kalashnikov, apresentando-se como membro da organização terrorista ISIS ou ISIL. Contou que vivia em Aleppo, na Síria, e intitulou-se mujahid/foot soldier/sniper na empresa Dawlah Islamyah fi Iqraq wa Sham, ou seja, combatente, soldado de infantaria do Estado Islâmico do Iraque e da Síria.
O Estado Islâmico publicou um vídeo da decapitação do jornalista norte-americano James Foley, cujo título era, precisamente, Mensagem para a América. E, em setembro, Celso Costa e Fábio Costa surgem no vídeo do EI, como "irmãos Mujahideen". Em outubro, numa entrevista à revista Sábado, Poças, assume-se como combatente do EI.
"Matar é fácil", disse, sublinhando que era "capaz de matar qualquer um que lute contra o islão". Prometia ainda "voltar à Europa com a bandeira da tawheed (bandeira preta símbolo da unidade islâmica) numa mão e com a arma na outra".
Família em Portugal "horrorizada", alguns familiares em Portugal começaram a reagir mal às atividades dos jihadistas portugueses.
Neste vídeo, lembrava o MP, Edgar e Celso empunham armas de fogo num posto de controlo do grupo terrorista Daesh, na Síria, durante as celebrações muçulmanas da Festa do Sacrifício Eid al-Adha e enaltecem a forma como na jihad sacrificavam não crentes ou infiéis.
Rómulo respondeu à irmã que "as pessoas em causa não estavam a gozar com a morte de ninguém".
As palavras código ;
Os arguidos utilizavam uma linguagem codificada nas conversas captadas nas escutas das autoridades Israelitas Portuguesas.
Hoje os Jihadistas Portugueses usam plataformas digitais para comunicar entre eles .
As autoridades Israelitas e Portuguesas vigiam os Jihadistas Portugueses.