OPERAÇÃO FRANCO OPERAÇÃO SALAZAR SALVOU MILHARES DE JUDEUS FUGIDOS AOS NAZIS
Nos conturbados e perigosos anos 40, em plena Segunda Guerra, com políticas anti-semitas vigentes, o país de Franco e o Portugal de Salazar permitiram a milhares de refugiados fugir ao pesadelo nazi. Vigiados e ameaçados, muitos preparavam a viagem para a liberdade. Apanhar um barco em Lisboa significava sobreviver.
Nuno Ribeiro, Madrid
A partir do Verão de 1942, três judeus portugueses tiveram um papel relevante na fuga através de Espanha e Portugal de refugiados oriundos do resto da Europa, sobretudo França, ocupada pelas tropas nazis. Quando no regime franquista pontuava como ministro dos Assuntos Exteriores e Interior o germanófilo Serrano Suñer, cunhado do caudillo, os irmãos Samuel e Joel Sequerra, em Barcelona, e Samuel Lévy, na capital espanhola, conseguiram vencer as dificuldades dos vistos, driblar a pressão policial e suavizar as condições de vida dos que eram detidos em campos de internamento. O objectivo era a saída dos judeus da Península Ibérica para a Palestina ou destinos do outro lado do Atlântico, aonde chegaram a bordo de vapores portugueses que zarparam de portos da península.
A 5 de Setembro de 1939, um decreto assinado pelo chefe de Estado Francisco Franco proclamava a neutralidade de Espanha na Segunda Guerra Mundial. No entanto, no seu discurso de Ano Novo de 39, uma intervenção inflamada pela recente vitória na Guerra Civil, o caudillo reivindicou o pioneirismo do vendaval de intolerância que se abatia sobre a Europa. "Agora compreendereis o que levou diversas nações a combater a actividade daquelas raças caracterizadas pela cobiça e os interesses (...) de que, por graça de Deus e da clara visão dos Reis Católicos, nos livrámos há séculos de tão pesada carga", disse. A raça eram os judeus e "a pesada carga" fora aliviada pela Inquisição. Já no desfile da vitória, de 14 de Maio de 1939, houve outra referência. Que augurava um longo combate: "O judaísmo, a maçonaria e o marxismo eram garras cravadas no corpo nacional (...) não tenhamos ilusões: o espírito judaico que permite a aliança do grande capital com o marxismo (...) não se extirpará num dia." Desta forma, Franco não se desvinculava das potências do eixo.
Assim, em Junho de 1940, a Espanha reconheceu o Governo colaboracionista de Vichy e, a 23 de Outubro daquele ano, Franco encontrava-se em Hendaia com Adolfo Hitler. Na reunião, é acordado o envio dos falangistas da Divisão Azul que, entre 1941 e 44, combatem lado a lado com os alemães na frente russa, a intensificação das exportações de volfrâmio para a indústria de armamento do III Reich e a manutenção das facilidades de abastecimento de víveres nos portos espanhóis para os submarinos da Alemanha.
O regime saído triunfador da Guerra Civil agradecia o apoio militar recebido da Alemanha e, também, da Itália de Mussolini. E tomava medidas surpreendentes. Em 22 de Março de 1940, foram proibidos em Espanha os ritos hebraicos: circuncisões, casamentos e funerais. Em Outubro do mesmo ano foram dissolvidas, por decreto, todas as instituições judaicas. Contudo, Franco não decretou nenhuma lei específica contra os judeus, semelhante à legislação anti-semita então em vigor na Alemanha, Itália e na Europa sob ocupação nazi. "Esta singularidade espanhola deriva do facto de a Espanha franquista, após restaurar a unidade católica, ter restabelecido de forma implícita o decreto de expulsão dos judeus de 1492", explica ao P2Danielle Rozemberg. Esta socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais e Políticas francês sublinha, no entanto, "que na Espanha nascida do triunfo [na Guerra Civil] das forças reaccionárias vigorava um anti-semitismo virulento baseado nos piores clichés do antijudaísmo cristão que se manteve nos manuais escolares até 1970".
Potencialmente perigosos
Só em 1997 os historiadores encontraram uma peça fundamental que repousava, anónima, nos arquivos do Ministério do Interior. Na década de 40 do século passado foi criado em Espanha um arquivo judaico, com fichas de cidadãos daquela comunidade. "O arquivo foi destruído, como outros, no início da transição democrática, em 1976, mas terá havido 100 mil fichas individuais no Arquivo Histórico Nacional", relata Jacobo Israel, historiador e presidente da Federação da Comunidade de Judeus de Espanha. Israel encontrou um documento único, uma circular da Direcção-Geral de Segurança (DGS) de 1941, que ordenava a criação do ficheiro com base na "perigosidade" dos judeus para o regime franquista. Este arquivo funcionou até 1957.
Na circular de 5 de Maio de 1941, José Finat, conde de Mayalde, director-geral da DGS, encomenda um trabalho ao governador civil de Saragoça. "A necessidade de conhecer os lugares e pessoas que em qualquer momento podem ser obstáculo ou meio de actuação contrário aos postulados que formam o Novo Estado requer que se preste especial atenção aos judeus residentes na nossa Pátria, recolhendo todos os detalhes e antecedentes que possam determinar a ideologia de cada um deles e a sua possibilidade de acção, dentro e fora do território nacional", refere a ordem. Depois, o conde de Mayalde define o método: "As pessoas objecto desta medida devem ser principalmente as de origem espanhola, designados com o nome de "sefarditas", pois pela sua habituação ao ambiente e similitude com o nosso temperamento têm maiores possibilidades de ocultar a sua origem e até passar desapercebidas." A circular continha um alerta para despertar burocratas adormecidos: "Tendo presente a relevância desta raça e os seus esforços para conseguir a cidadania espanhola durante o período republicano, será possível determinar a personalidade dos judeus espanhóis existentes nessa província ainda que surjam dificuldades." O escrito do chefe da DGS ao governador civil de Saragoça, que por ser circular terá sido enviado a responsáveis de outras províncias, referia que em 1933 existiam cinco mil judeus em Espanha e alertava: "A título informativo, assinalo que em Junho de 1932 foi criada em Paris uma "Confederação Universal de Judeus Sefarditas" que indubitavelmente manteve contactos com gentes da mesma origem, residentes no nosso solo ao amparo das favoráveis circunstâncias daqueles tempos." Ou seja, poderiam ser perigosos. Por isso, os dados requeridos, no referido formulário, eram "a filiação pessoal e político-social, relevo alcançado em seitas ou organismos políticos ou sindicais, situação actual e grau de perigo". Aos judeus oriundos de outros países era requerida a nacionalidade de origem, lugar de procedência e motivo da sua estadia em Espanha. "Este censo não era inocente", sublinha Rozemberg: "A Espanha ainda poderia participar na guerra ao lado do Reich."
Pressões de Hitler
Seis meses antes de ter redigido esta circular, o conde de Mayalde recebeu em Espanha Heinrich Himmler. Foi em Outubro de 1940 que o chefe das SS encontrou conversa afável com o director-geral da DGS espanhola, membro da Falange, amigo e colaborador de Serrano Suñer. "Os resultados do encontro concretizaram-se no envio de um conselheiro da Gestapo para Madrid", revela Danielle Rozemberg. "Durante anos, foram feitas extradições de duvidosa legalidade de alemães envolvidos nas Brigadas Internacionais, que lutaram com os republicanos contra Franco, e em troca a Espanha obteve a repatriação de personalidades republicanas refugiadas na França ocupada", diz a investigadora.
Portanto, havia colaboração para além de laços de proximidade ideológica ou de amizade pessoal. "As pressões de Hitler a Franco e a Petáin [chefe do Governo de Vichy] levaram, em meados de 1940, a um acordo entre Madrid e Vichy para que os detidos num raio de cinco quilómetros na fronteira hispano-francesa fossem expulsos para França", exemplifica Josep Calvet, historiador da Universidade de Lérida. Depois, segundo Calvet, houve outras medidas: "Os judeus que vinham de França não podiam entrar em Espanha. Não havia uma ordem do Governo espanhol nesse sentido, mas era a prática seguida pelos governadores civis." O historiador, que investigou a passagem nos Pirenéus de refugiados entre 1939 e 1944, refere que cerca de mil judeus expulsos por Espanha acabaram em campos de extermínio. "As ordens de expulsão não correspondiam a uma estratégia definida, mas Franco sabia do holocausto, como consta dos relatórios dos cônsules espanhóis que estão nos arquivos do Ministério dos Assuntos Exteriores", acentua Josep Calvet. Numa dessas missivas, de Julho de 1943, Ginês Vidal, embaixador espanhol em Berlim, referia-se ao destino de "sefarditas" - judeus de nacionalidade espanhola - que viviam na Alemanha: "Não ocultaremos (...) as trágicas consequências que teria para eles a sua deportação para a Polónia."
A cooperação tinha outros objectivos, muito além de meras amizades perigosas. "A Espanha tinha a mira no futuro do rochedo de Gibraltar sob bandeira britânica", assegura ao P2 Bernd Rother, investigador do Instituto Willy Brandt. Então, as autoridades espanholas recorriam a dois pesos e duas medidas. "Após a ocupação anglo-americana do Norte de África, os franceses refugiados em Espanha querem unir-se ao Exército aliado, mas são considerados beligerantes e tratados como tal", observa Calvet. "Já os adeptos do Governo de Petáin têm as maiores facilidades para abandonar o Norte de África e regressar à França ocupada, atravessando território espanhol", conclui.
Os gémeos Sequerra
A substituição, a 3 de Setembro de 1942, de Serrano Suñer à frente da diplomacia espanhola por Francisco Gómez-Jordana Sousa, conde de Jordana, abre uma nova fase. Ao conde de Jordana as potências do eixo atribuem simpatia pelas posições dos aliados. Foi precisamente no final da Primavera de 1942 que Samuel e Joel Sequerra, dois gémeos de cinco irmãos, chegaram a Barcelona como funcionários da organização judaica de apoio aos refugiados Americain Juich Joint Distribution Committee com a cobertura da Cruz Vermelha Portuguesa. Os Sequerra tinham nascido em Faro, filhos de um empresário das pescas. A morte do pai, em 1928, e a crise económica de 29 levaram à falência a empresa familiar, pelo que se estabeleceram em Lisboa, em 1933. Quando, por pressão do embaixador norte-americano em Espanha e aconselhado pelo ministro Jordana, Franco abre a fronteira à Joint, os irmãos Sequerra chegam a Barcelona.
Instalam-se no Hotel Bristol, na Praça de Espanha, onde, com o apoio das embaixadas britânica e dos Estados Unidos, abrem um centro de apoio. Samuel Sequerra, licenciado em Ciências Económico-Financeiras, utilizou os seus contactos para montar a rede. O seu irmão Joel não se movia nas altas esferas. Era um homem do terreno, dedicado à assistência social, pelo que viajava pela geografia espanhola visitando os campos de internamento de refugiados: Figueres, na província de Girona, na Catalunha; Irún, junto à fronteira hispano-francesa em terras bascas; Cervera, na província catalã de Lérida; Nanclares de Oca, em Álava, no País Basco; Miranda del Ebro, em Burgos. Este último campo funcionava desde 1937 para o internamento de republicanos detidos pelas tropas franquistas. Figueres e Irún, próximos à fronteira francesa, tinham funcionado como lugares de classificação dos espanhóis que regressavam ao seu país após terem fugido durante a Guerra Civil. Curiosamente, os campos de Cervera e Miranda del Ebro, depois de terem recebido republicanos e fugitivos dos nazis, em 1944 acolheram funcionários alemães das fronteiras que escapavam ao avanço aliado. Era nestes campos que Joel Sequerra contactava com as famílias judias.
A actuação dos Sequerra chamou a atenção do regime espanhol. Em Agosto de 1942, as instalações da Joint no Hotel Bristol foram alvo de busca da polícia que apreendeu documentos, que seriam devolvidos um mês depois. Sem explicações. Anos depois, antes da informal delegação da Joint se mudar para outras instalações no Passeo de Grácia de Barcelona, a "visita" foi mais dura. A 18 de Julho de 1944, desesperados com o rumo da Guerra e "aquecidos" por um jantar num dos salões do Hotel Bristol em celebração do levantamento das tropas de Franco de 1936, um grupo de falangistas assaltou as instalações e destruiu todo o mobiliário. Os Sequerra foram também alvo de acções directas. Como a colocação de uma bomba-relógio que destruiu o seu carro, e outras tentativas de atentados.
Em Madrid, outro português dedicava-se ao mesmo trabalho. Samuel "Sam" Levy, que salvara uma família judia de Marselha escondendo-a numa aldeia nos arredores de Milão, chega à capital espanhola em 1942 para organizar uma secção da Cruz Vermelha Portuguesa de apoio aos refugiados. O seu trabalho concentrava-se no campo de internamento de Miranda del Ebro, em Burgos, 300 quilómetros a norte de Madrid, onde ajudava os aí internados. Entre os quais judeus. A sua memória é hoje recordada no nome de uma rua, "Sam Levy", em Caselas, junto ao Restelo.
Hoje, admite-se que os irmãos Sequerra ajudaram directamente à fuga de mil judeus que, de Espanha, entravam em Portugal para saírem rumo à Palestina ou ao continente americano. Entre eles, o barão de Rothschild. Uma família da qual outros membros escaparam graças a Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus e Bayonne. "O meu avô ajudou então, entre muitas outras pessoas, 11 membros da família Rothschild que já manifestaram a sua disponibilidade para ajudar à recuperação das nossas instalações", revela Álvaro Sousa Mendes, presidente do Conselho de Administração da Fundação Aristides de Sousa Mendes.
A questão dos vistos
"A partir de 1943, quando muda a balança da guerra e invocando a razão de Estado, Franco teve uma cara amável para os aliados", diz ao P2 o catedrático e historiador Alex Baer. No entanto, para os refugiados e judeus internados nos campos espanhóis ainda eram tempos de sobressalto. Em questão estava a política de vistos, que não facilitava a sua estadia em Espanha e não garantia a partida para destino seguro. "No caso dos vistos não havia um critério anti-semita, mas sim a aplicação de uma política geral restritiva", prossegue Baer. "Os vistos são de trânsito e estavam condicionados à existência de outro visto para Portugal ou um terceiro país", explica. Quer Portugal, quer a Espanha tinham um mesmo objectivo. Entrada controlada de refugiados para assegurar a sua saída, a fim de não permanecerem em território nacional. Mas não tinham uma política de vistos coordenada ou coerente.
"A partir de 1938/40, uma lei do Estado Novo restringiu a entrada de refugiados em Portugal: Salazar [Presidente do Conselho] permitia que Portugal fosse um país de trânsito para outros destinos, mas nunca um país de acolhimento definitivo", diz a historiadora Irene Pimentel. "A política de vistos dos portugueses não ajudava, havia gente que ficava em Espanha sem poder ir para Portugal e acabava internada em campos", corrobora Alex Baer. O que parece uma mera incompreensão burocrática acabava em desespero. E drama. Foi o que aconteceu ao casal judeu Schiff, detido em território espanhol com os papéis em ordem e com uma passagem comprada para, em Lisboa, embarcar no vapor Lourenço Marques. Como não tinham visto de entrada em Portugal, os Schiff foram obrigados a regressar a França, em 29 de Outubro de 1942, pela fronteira de La Jonquera, na Catalunha.
A solução era a emissão de vistos à margem das ordens dos Governos. Foi o que fez o cônsul português Aristides de Sousa Mendes. A historiadora Pimentel estima que concedeu entre dois e três mil vistos. Na fundação com o seu nome fala-se de um número bastante superior - entre dez e 11 mil. Em Espanha, também houve diplomatas que desobedeceram às directrizes: Bernard Rollant, cônsul-geral em Paris; Sebastián Rodrigales, representante diplomático espanhol em Atenas; Angel San Briz, adjunto de Negócios em Budapeste.
De uma ou de outra forma, era favorecida a clandestinidade. Em Lisboa, Moisés Amzalak, dirigente da comunidade judaica, professor de Economia e Finanças, presidente da Academia das Ciências, com bons contactos no regime e com António de Oliveira Salazar, pedia a abertura das fronteiras para os refugiados. As conversas iam dando algum fruto. "Em 1942, os clandestinos que estavam presos pela PVDE [Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, antecessora da PIDE] saíram após negociações, para a Ericeira", recorda Esther Mucznik, actual vice-presidente da comunidade judaica de Lisboa.
Os barcos da liberdade.
A questão dos vistos portugueses passou a ser fundamental quando a saída da Europa deixou de ser feita a partir de portos espanhóis. Em Janeiro de 1944, zarpou de Cádis, na Andaluzia, a primeira repatriação de judeus para a Palestina: 550 passageiros seguiram viagem no Niassa, um vapor português. "Foi o primeiro barco que cruzou o Mediterrâneo sem escolta desde que começou a guerra, pois os beligerantes concederam-lhes passagem", relatava a reportagem publicada no Diário de Cádis. Foi um dos poucos casos. Uma ameaça acabou com esta via de fuga. "Em 1943, os alemães ameaçaram bombardear os barcos com refugiados que saíam de Málaga, Algeciras e Cádis, o que, a partir de então, dá maior protagonismo aos portos portugueses", afirma Josep Calvet.
Foi assim que, a 30 de Abril de 1943, de Setúbal, partiu um grupo de 850 franceses para o Norte de África, que já então se encontrava sob controlo anglo-americano. Depois de terem escapado da ocupação alemã e superado a detenção nos campos de internamento espanhóis partiam para a liberdade. As viagens dos judeus eram organizadas pela HICEM-HIAS, a organização judaica que fretava os barcos. Niassa, Lourenço Marques, Serpa Pinto e Luanda foram os navios - vapores, como estão se dizia - da fuga. Foram os barcos da liberdade para alguns dos 80 mil refugiados que passaram por Espanha na Segunda Guerra Mundial, dos quais cerca de 35 mil eram judeus.