A CASA PIA ( PORTUGAL) E EPSTEIN


A empregada portuguesa, o marido mordomo, a Casa Pia e Epstein

POR Felicia Cabrita e Vitor Rainho

O casal de funcionários em Paris, as viagens do financeiro e amigos a Portugal, Luís Amado, António Damásio, Maddie McCann e o caso Casa Pia, são muitas as referências a Portugal no enredo dos ficheiros do pedófilo mais conhecido do mundo que foram libertados pela Justiça dos EUA.
A empregada portuguesa, o marido mordomo, a Casa Pia e Epstein
                       Epstein 

O mundo tem sido surpreendido com a divulgação dos ficheiros de Jeffrey Epstein, devido às ligações do homem que foi condenado por ‘comandar’ uma rede internacional de prostituição, que incluía menores, envolvendo figuras como Donald Trump, Bill Clinton, Kevin Spacey, Bill Gates, além de outras personagens que terão passado pela mansão do pedófilo. Portugal também faz parte dos três milhões de ficheiros que a Justiça americana agora libertou. Tudo terá começado em 2019, quando a Netflix Canadá lançou um documentário sobre o desaparecimento de Madie McCann, tendo os autores falado com a jornalista Felícia Cabrita, redatora principal do Nascer do SOL. Ao ser questionada sobre o caso Casa Pia, Felícia recordou o envolvimento de milionários norte-americanos no escândalo de pedofilia e de como conseguiam  comprar e abafar os seus atos hediondos. Até Américo Tomaz mandou arquivar o processo onde se provava que Ken Rogers, entre outros, violou várias crianças da Casa Pia, além de as levar para festas na antiga Jugoslávia, para o seu rancho na Califórnia ou para Madrid. A partir daí, alguém alertou o FBI, não se sabendo se a Polícia seguiu ou não a pista, mas nos ficheiros agora divulgados, fica a saber-se Epstein passou por Portugal, e numa das vezes, a bordo do seu avião Lolita Express – o pedófilo não escondia a sua atração por crianças – parou na ilha de Santa Maria, nos Açores. A bordo do avião estariam, além de Epstein e da mulher, Ghislaine Maxwell, Bill Clinton, Kevin Spacey, além de outras figuras.  Também Luís Amado, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do PS, aparece nos ficheiros, falando-se que alguém sugeriu a Epstein para se encontrar com 15 figuras, entre as quais o antigo ministro. Luís Amado, entretanto, já disse à SIC que o «assunto é ridículo», afirmando nunca ter visto Epstein na vida. Também o nome de António Damásio aparece nos ficheiros, e ao Observador o neurocientista explica que lhe fez um pedido de financiamento para um projeto científico: « Não sabia nada sobre ele pessoalmente, além do facto de ele ser um filantropo que apoiava os trabalhos académicos de grandes universidades e de ser um mulherengo».

Nos ficheiros há ainda provas de que Epstein apreciava alguns refúgios em Portugal.

Atendendo a que foi Felícia Cabrita a autora do artigo sobre a Casa Pia que envolvia milionários americanos pedófilos, o SOL entrevista a sua redatora principal.

O documentário era sobre a Madelein McCann e os autores perguntaram-me se podia haver alguma ligação do caso a redes de pedófilos internacionais, já que eu tinha publicado as ligações do caso Casa Pia com pedófilos americanos, e pedem-me para falar do caso.

Vão buscar a Casa Pia porque eles tinham uma linha de investigação que incluía várias hipóteses, entre elas a de a criança inglesa poder ter sido raptada por uma rede pedófila. Daí a ponte à minha investigação da Casa Pia. Foi aí que lhes falei das várias redes estrangeiras que operaram em Portugal. Eu conhecia uma francesa e a dos americanos. Porque é que isto interessa ao FBI? Nos ficheiros de Epstein há alguém que sugere ao FBI, depois de ter visto o documentário, que há ali uma linha de ligação que deve ser investigada. Qual é o interesse? Estamos a falar do milionário Epstein, gestor de fortunas, com contactos nas grandes elites internacionais. Logo seguem o rasto do dinheiro.

Trata-se de uns americanos que tinham uma fictícia organização chamada AMACO, que segundo diziam os seus estatutos, tinha sido criada para ajudar e cuidar de órfãos sem-abrigo, crianças negligenciadas ou abusadas, de qualquer idade, credo ou religião – eles tinham mesmo uma revista onde publicitavam as suas histórias. Estavam implantados, segundo a revista a que tive acesso, em vários países subdesenvolvidos, nomeadamente em África. Isto é um esquema clássico do pedófilo, sobretudo do pedófilo rico, que passa por benemérito e com as cumplicidades, nomeadamente criadas na Casa Pia, na altura com o provedor Francisco Rodrigues que lhes estende a passadeira vermelha para abusarem dos alunos da instituição. Ken Rogers, denominava-se secretário-geral da AMACO, tinha ligações a uma série de outros milionários, gente ligada à ciência, médicos inclusive e cumplicidades com países como a Jugoslávia do Tito e a Espanha do Franco…

Sim, mas não sabemos depois até quando permaneceram por cá. Portanto, este milionário americano chegava aqui com convidados, e é através de um agente ligado ao turismo que são apresentados ao provedor da Casa Pia. E é apresentado como um milionário que quer ajudar a Casa Pia. E tem planos. Ele já conhecia a Casa Pia, a estrutura casapiana. Sabia, por exemplo, que eles tinham uma espécie de consultório para dentistas muito tosco e propõe equipá-lo. O colégio dos miúdos surdos-mudos da Casa Pia foi o alvo, claro, mais apetecível. E venderam a ideia ao provedor que tinham forma de lhes fazer uma cirurgia para colocar uns transístores minúsculos que fariam o milagre de colocar as criancinhas a ouvir. Nessa situação prevaleceu a opinião de um especialista do hospital Santa Maria que colaborava com a instituição. Carlos Barros disse que «não conhecia semelhante operação» e, por isso, não podia pronunciar-se favoravelmente.  Portanto, a troco de uma série de melhorias na Casa Pia, ele conseguiu abrir caminho para levar as crianças que queria, quer para a Jugoslávia de Tito, conseguindo, e eu tive os passaportes na mão, que a PIDE carimbasse no mesmo dia o passaporte para as crianças poderem sair e irem para a Jugoslávia, isto apesar de que ninguém saía daqui para um país do leste. Tinham de ter, claro, ligações privilegiadas com o regime, para conseguirem este bruxedo. Levavam os miúdos para a Jugoslávia, para um rancho que ele tinha na Califórnia, ele era californiano, e chegaram a levar para a Espanha, onde supostamente um dos miúdos seria operado ao coração. Alguns percetores com quem falei  na altura tentaram denunciar a situação, e há um padre que foi fundamental para dar origem a um processo que foi aberto no Tribunal de Menores e Família, porque ainda houve uma investigação a correr.

«Ainda havia, dentro da Casa Pia, almas a quem as fibras do coração tiniam perante a fatalidade das crianças. As queixas continuam e um dia, coisa extraordinária, chegam ao ministro da Saúde e Assistência, Balthazar Rebelo de Sousa, que abre um inquérito. Alunos e preceptores acabam por ser ouvidos no Tribunal de Menores e Família.

Nos registos oficiais ficam assentes relatos espantosos. Os miúdos contam que, depois de muito champanhe, acordavam nas alcovas dos americanos. Rogers tem estranhas cumplicidades com os regimes que o seu país despreza. Em Janeiro de 1972, enquanto decorriam os expedientes judiciais em torno do pedófilo, ele está de novo em Madrid. Franco convidara-o para o casamento da sua neta Maria Carmen Bordiu. E nada do que se passa em Lisboa lhe escapa: «Tem tido notícias que tem havido interrogatórios, investigações ou alguma coisa do género envolvendo-me? Tudo me leva a crer que qualquer acto meu agora é suspeito... Fiquei surpreendido de saber que aquele rapaz que você originalmente me falou para visitar os EUA agora afirma que a única razão por que não veio foi porque, quando eu e você falámos com ele, ele não me permitiu que lhe desse um beijo. Meu Deus! Como é que o pobre miúdo pode acreditar nisso. Se você não tem conhecimento do que se está a passar agora, eu sugeria-lhe que tomasse conhecimento. Deixou-me completamente sem vontade nenhuma de voltar a Lisboa. Talvez fosse melhor dar-me o nome de um excelente advogado de forma a que me possa corresponder sobre esse assunto.» As classes superiores, é sabido, sobrevivem de imunidades e grandes benefícios. Talvez por isso Américo Thomaz tenha chamado a si o processo dos ianques para o lançar nas brasas do esquecimento».

 Voltemos a dar a palavra a Felícia. A Maria Teresa Lobo, a primeira mulher a integrar um governo em Portugal e que era a subsecretária de Estado que tinha, à época, a tutela da Casa Pia, depois de a notícia sair, veio confirmar que existiu esse processo. Mas o Américo Thomaz amoleceu o processo e abafou-o. O que é que constava? Estes percetores que estiveram nos acampamentos onde os miúdos iam, contavam que eles chegavam e lhes davam álcool a beber, e depois havia orgias com os miúdos, quer fosse nos acampamentos como em hotéis. Ou mesmo no estrangeiro. Isso sabe-se como? Porque há correspondência, ainda vi as cartas íntimas que os miúdos lhes enviavam quando regressavam dessas viagens. Falavam com eles como se fossem namorados. Que tinham saudades, corações, beijinhos e não sei o quê. Tudo aquilo estava confirmado, aliás há relatórios da própria instituição que falam das ‘práticas homossexuais’. Foi mesmo às escancáras, eles dominavam a Casa Pia e faziam dos miúdos o que queriam. Há uma história impressionante, que é de um miúdo que tem um problema no coração, que era gravíssimo, e que eles disseram ao provedor que aquilo tinha cura. Primeiro começaram por dizer que o levavam para os Estados Unidos para ser operado, e, às tantas disseram que o miúdo não suportava a viagem e encurtaram-na para Madrid, para um cirurgião que  era um amigo do genro do Franco. O miúdo foi para a clínica, nós não sabemos exatamente o que se passou, temos cartas que eu apanhei dele para o irmão, naquela altura, em que dizia que nunca tinha comido coisas tão boas, que nunca esteve tão bem instalado e é a última referência que se tem do miúdo vivo. De repente aparece morto. Não sabemos se ele esteve de facto naquela clínica em Las Casas, só sabemos que ele saiu daqui vivo para ser operado e chegou cá morto. Mas mesmo assim, nesta revista que eles tinham, publicaram a história do miúdo como se fosse uma história de sucesso. Isto para quê? Para poderem impingir aos outros orfanatos, aos outros locais onde eles se apresentavam, nos quatro cantos do mundo, que eram uns ricos beneméritos.

Mas qual a razão para tantos anos depois a história ter chamado a atenção do FBI?

Exatamente porque se tratava de milionários americanos. Seguiram a pista do dinheiro.

Eles queriam associar o Epstein a esta rede?

Sim, para eles era uma linha de investigação a seguir e que se entende porque nos ficheiros há várias referências a Portugal. Há viagens feitas pelo Epstein ao país e ele tinha vários contactos que incluem Portugal no seu roteiro. Ao ponto de ele, em determinada ocasião, numa pesquisa que fez na net reencaminhar para si próprio um link de uma luxuosa cabana numa falésia de uma praia algarvia que pretendia alugar. Mas também mantém contacto com várias modelos que por cá passaram em trabalho para determinadas agências e que com ele combinam encontros na data agendada para o seu regresso. Mas o mais curioso é que ele teve até uma empregada portuguesa: Maria Gomes Melo que era casada com o mordomo que ele teve mais de 18 anos ao seu serviço num apartamento de luxo em Paris. Este Valdson Coutrin, foi um tipo que nunca acreditou que ele se tivesse suicidado, e veio a público dizê-lo. Dizia também ter receio pela sua própria vida. Valdson foi o homem que confirmou os encontros na casa do Epstein com o Woody Allen, o Bill Clinton, dizendo até que possuía fotos do Bill Clinton no avião privado que se chamava Lolita Express, numa homenagem ao escritor Nabokov  que escreveu a Lolita, e que era o avião que transportava as vítimas. Nos ficheiros há emails trocados entre Maria Melo e outra funcionária de Epstein que pagava as viagens dela, por saber falar mal inglês e precisar de alguém que a fosse esperar ao aeroporto. As mensagens desta mulher, pelo que vi, que não têm nada de incriminatório, mas revelam a relação de proximidade que havia, revelando também as ligações de Epstein com Portugal. Sabe-se que lhe era incumbido, por exemplo, tarefas de escolha de plantas para decoração. Talvez tenham sido estas relações que despertaram o interesse do FBI pelo caso Casa Pia.Tentar ligar pontas entre os milionários americanos, Portugal e a pedofilia. Tanto que no email de denúncia ao FBI, que está nos ficheiros, eles dizem, a propósito da série da Netflix sobre a Madeleine McCann: «Na primeira temporada, episódio 3, os jornalistas portugueses referem um escândalo ocorrido anos antes, relacionando com maus tratos a crianças num orfanato português. O caso é conhecido como o Pacto do Silêncio. Em relação ao orfanato Casa pia, um jornalista [Felícia Cabrita] afirma que é um facto notório que milionários americanos chegavam a Portugal em jatos privados com o propósito de abusar sexualmente destas crianças. Esta pode ser uma linha de investigação que queira seguir», escreveu o denunciante, embora não se consiga ver o seu nome, pois está riscado. 














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