COMANDOS PORTUGUESES

Analista de Segurança e Defesa

A relevância histórica e futura dos comandos portugueses

As conferências do cinquentenário da Associação de Comandos de Portugal, realizadas em 25 e 26 de junho de 2025 no Instituto Universitário Militar, representaram um marco fundamental para a reflexão sobre o passado, presente e futuro da tropa de Comandos em Portugal. Estes eventos, que contaram com a presença de figuras proeminentes do cenário militar e estratégico da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, como o Ministro da Defesa Nacional, Dr. João Nuno Melo; o General Chefe do Estado Maior do Exército Português, Eduardo Manuel Mendes Ferrão; o 2º Comandante do Exército de Angola, Tenente-General João Cruz Fonseca; o General José Pinto Ramalho; o Presidente da Associação de Comandos José Lobo do Amaral e do Comandante do Batalhão de Ações de Comandos do Exército Brasileiro, Tenente-Coronel Kauê Menezes Chagas, serviram como um palco crucial para debater os desafios e as oportunidades que se colocam à Força de Primeiro Emprego ao serviço de Portugal.

A tónica principal de uma das conferências, "OS COMANDOS, FORÇA DE PRIMEIRO EMPREGO AO SERVIÇO DE PORTUGAL", proferida pelo Coronel Comando Júlio Lopes Pipa de Amorim, sublinha a natureza estratégica destas discussões. O texto desta conferência realça como a história dos Comandos está intrinsecamente ligada à história contemporânea de Portugal, desde o seu nascimento em combate até ao seu papel na consolidação da democracia e na projeção do nome de Portugal no cenário internacional.

Desafios do Século XXI: da Guerra Híbrida à Revolução Tecnológica

As conferências abordaram em profundidade a evolução da conflitualidade global. Discutiu-se que, apesar das "novas guerras" e do terrorismo terem dominado o imaginário estratégico, os conflitos interestatais de alta intensidade nunca cessaram e continuarão a eclodir. A guerra na Ucrânia foi apresentada como um exemplo paradigmático de um conflito híbrido, que, embora envolvendo elementos convencionais, realçou a preponderância de Forças Especiais e a omnipresença da tecnologia. Este cenário evidencia a necessidade premente de uma adaptação tecnológica constante das forças militares, desde equipamentos individuais de baixa assinatura térmica e drones, até à integração da Inteligência Artificial no planeamento e nas operações.

A adequação dos comandos e os desafios internos

Um ponto central das reflexões foi a adequação do conceito de emprego e da estrutura orgânica do Batalhão de Comandos ao quadro atual de conflitualidade, incluindo a transição para conflitos de alta intensidade. A flexibilidade e a capacidade de atuação descentralizada dos Comandos, bem como o seu histórico em missões ofensivas de curta duração em profundidade, foram elementos destacados. A complementaridade entre os Comandos e outras Forças de Operações Especiais também foi enfatizada, especialmente em operações que requerem efetivos maiores ou que visam alvos de elevado valor e complexidade.

No entanto, as conferências também trouxeram à tona desafios endógenos significativos, particularmente no contexto português. A carência de investimento em reequipamento tecnológico das Forças Armadas, e em particular dos Comandos, foi apontada como uma falha crítica que, em cenários de conflito simétrico, poderá ter custos humanos elevados. Mais preocupante ainda é a crise de recursos humanos, com uma perda de mais de 30% dos efetivos das Forças Armadas na última década. A dificuldade em recrutar e reter militares qualificados, treinados e diferenciados, especialmente no caso dos Comandos, representa uma "situação de emergência" que pode comprometer a capacidade futura de operar e manter os meios, mesmo que de última geração.

O legado e o futuro

A definição lapidar de "Comando" proferida pelo Coronel Santos e Castro, "aquele que na guerra for capaz de fazer o que é impossível para os outros", ressoou como um lembrete do valor intrínseco e da singularidade desta força. Os testemunhos de figuras como o General Kaúlza de Arriga e General Ramalho Eanes, que consistentemente elogiaram a coragem, bravura e eficácia dos Comandos, validam o seu excelso percurso histórico.

As conferências do cinquentenário não foram apenas uma celebração de um legado glorioso, mas um imperativo para o futuro. Foram uma plataforma vital para a discussão de como preservar o património imaterial inerente à formação, estrutura e treino operacional dos Comandos, garantindo que esta unidade, a mais condecorada das Forças Armadas Portuguesas, continue a ser um instrumento indispensável para a segurança e defesa de Portugal num mundo em constante mutação. A seriedade e vontade política em enfrentar os desafios internos, nomeadamente a valorização da condição militar, são cruciais para que os Comandos possam continuar a cumprir a sua missão de Força de Primeiro Emprego com a excelência que os caracteriza.


  


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