UMA FOLHA DE OLIVEIRA DO PARAÍSO
Uma folha de oliveira do paraíso – Parashat Noach
POR Rabino Shmuel Rabinowitz
Na Parashá Noach, o Rabino Shmuel Rabinowitz interpreta a folha de oliveira da pomba como um símbolo de liberdade espiritual — preferindo o sustento "amargo" de D'us à doce dependência do homem. Emergindo da arca para um mundo vazio, porém libertador, a pomba personifica o anseio por autoconfiança e confiança divina. A mensagem ressoa hoje com a alegria daqueles libertados do cativeiro — adentrando novamente o paraíso da liberdade após profundo sofrimento.
Rabino Shmuel Rabinowitz – Rabino do Muro das Lamentações e Locais Sagrados
A Parashá Noach conta a história do dilúvio que atingiu o mundo devido à corrupção de todas as criaturas vivas, que arruinou o universo inteiro. Uma única arca flutuava sobre as águas, abrigando os únicos humanos sobreviventes – Noach, seus filhos e suas esposas – juntamente com pares de todas as espécies animais. Aqueles abrigados na arca estavam destinados a restaurar a vida ao mundo desolado e reconstruí-lo.
No final do dilúvio, quando as águas começaram a baixar, Noach quis saber se a terra havia secado. Para descobrir, ele soltou a pomba da arca, raciocinando que, se ela retornasse, significava que a terra ainda estava coberta de água e não havia secado.
A pomba, na primeira vez, de fato não encontrou lugar para pousar.
“Mas a pomba não achou repouso para a planta do seu pé, e voltou para ele, para a arca, porque as águas estavam sobre a face de toda a terra; então ele estendeu a mão, tomou-a e fê-la entrar consigo na arca.”
(Bereshit 8:9)
Observe a formulação do versículo: a pomba não retornou a ele para dentro da arca! Ela permaneceu do lado de fora até que Noach estendeu a mão para trazê-la de volta. Ela preferiu ficar do lado de fora a entrar na arca segura e bem abastecida, que lhe oferecia pensão completa sem custo algum.
Sete dias depois, Noach soltou a pomba novamente, e desta vez a situação era diferente:
“E a pomba veio a ele à tarde, e eis que na sua boca havia uma folha de oliveira arrancada; e soube Noach que as águas tinham minguado de sobre a terra.”
(Bereshit 8:11)
O Talmude Babilônico, no Tratado Eruvin, cita este versículo e acrescenta:
“A pomba disse: Que meu alimento seja amargo como a azeitona, mas dado pela mão do Santo, bendito seja Ele, em vez de doce como o mel, mas dado pela mão da carne e do sangue.”
(Eruvin 18b)
Depois que a pomba finalmente encontrou um lugar para descansar e até descobriu uma oliveira da qual arrancou uma folha, ela se sentiu compelida a retornar ao seu benfeitor, Noach, e transmitir uma mensagem: Por um ano habitei sob sua proteção e não me faltou nada — mas prefiro confiar na providência de D'us e viver do que Sua natureza fornece do que permanecer em sua arca, mesmo com comida "mais doce que o mel".
O problema não era o confinamento ou a falta de liberdade. Era o sentimento de dependência, de paternalismo. A pomba sentia-se sobrecarregada pela sensação de que sua sobrevivência dependia da misericórdia de outra pessoa. Esse sentimento pesava sobre ela mais do que o amargor da folha de oliveira.
Assim, diferentemente da primeira vez, quando ela ficou do lado de fora e Noach teve que estender a mão para levá-la de volta para dentro, na segunda vez, depois que ela mesma encontrou e colheu a folha de oliveira, "ela foi até ele à noite". Desta vez, ela entrou por conta própria, como se dissesse: Não me importo de ficar aqui por enquanto, mas, por favor, deixe-me cuidar de mim mesma.
À luz dessa interpretação, podemos entender melhor o Midrash:
De onde a pomba trouxe a folha de oliveira?
“Rabi Bira'i disse: Os portões do Paraíso foram abertos para ela, e ela trouxe de lá.”
(Bereishit Rabbah 33)
Depois de um ano inteiro na arca, onde todas as suas necessidades foram supridas da maneira mais confortável, ela saiu para o mundo aberto, um mundo de fato vazio e desolado, mas de repente ela se sentiu livre. Ela era um pássaro da liberdade. O vasto mundo, o vento suave sob suas asas. Para ela, aquilo parecia o Jardim do Éden.
Ela voltou direto para seu benfeitor, carregando a única folha que havia encontrado no mundo – uma folha do paraíso da liberdade.
Mesmo agora, nossos corações batem junto com os dos heróis e reféns libertados, que por dois anos sofreram nos túneis da escuridão e na sombra da morte. Eles suportaram terrível sofrimento e angústia, e agora, de repente, estão aqui, no paraíso da liberdade.
Que esse sentimento de paraíso os acompanhe sempre, pois eles já sofreram o suficiente.