RAV Ytchak Zweig
BOM DIA! O período de dez dias que começou com os dois dias de Rosh Hashaná (este ano, 23 e 24 desetembro) e termina em Yom Kipur (02 de outubro) é conhecido como Asseret Yemei Teshuvá (os “10 Dias de Arrependimento”).
Yom Kipur (e o jejum) inicia-se às 17h45min de quarta-feira (01 de outubro) e vai até as 18h45min de quinta-feira (02 de outubro) (horário de S. Paulo).
Nesta semana gostaria de falar sobre estes dias até Yom Kipur.
Este Shabat (que ocorre entre Rosh Hashaná e YomKipur) é chamado de Shabat Shuvá - o "Shabat do Arrependimento".
A propósito, Yzkor, a prece em memória dos falecidos, é recitado na quinta-feira, dia 02. Qualquer pessoa familiarizada com a liturgia de Yom Kipur sabe que grande parte do serviço religioso contém muitos trechos com palavras de confissão e pesar.
Além disso, abster-se de comer e beber por 25 horas certamente aumenta a sobriedade do dia. Com isso em mente, a seguinte passagem do Talmud (Taanit26b) é nada menos que surpreendente. Rabi Shimon ben Gamliel disse; “A nação judaica nunca teve dias mais festivos do que 15 de Av e Yom Kipur”.
Qual a razão? Porque nesses 2 dias se faziam shiduchim (encontros entre rapazes e moças com vistas acasarem-se).Isso é bastante extraordinário.
De alguma forma, Yom Kipur era um dos dois dias do ano escolhidos para organizar encontros adequados para futuros jovens casais! Que elemento do Yom Kipur torna este um dia apropriado para isso? Além disso, como o Talmud pode caracterizar o Yom Kipur como um dos dois dias mais festivos do calendário judaico?
Isso parece exatamente o oposto do tom solene do Yom Kipur. De onde emana o sentimento de alegria? Vejamos, então: Nesta Porção Semanal a Torá escreve: “Este mandamento não está oculto nem longe de você”(Devarim 30:11).
O Ramban, Rabino Moshe ben Nachman (Espanha e Israel, 1192-1270), brilhante estudioso e cabalista espanhol, explica que esse versículo se refere à mitsvá do arrependimento.
E continua: “Esta mitsvá não é difícil de cumprir e pode ser cumprida em todos os momentos e em todos os lugares”. Esta descrição da mitsvá do arrependimento como sendo bastante fácil é um pouco difícil de compreender. Afinal, ano após ano, parece que nos encontramos na mesma situação e nos arrependemos dos mesmos pecados de anos anteriores. Seu comentário sobre a facilidade do arrependimento me lembra do fumante ainda não totalmente recuperado que dizia: “Parar de fumar é a coisa mais fácil do mundo - já fiz isso centenas de vezes”. Talvez ainda mais problemático: como alguém pode honestamente voltar ano após ano e dizer exatamente as mesmas palavras, pedindo perdão a D’us pelos mesmos pecados repetidas vezes? Em que ponto não é mais crível?
É bem provável que você conheça alguém que já tenha ‘lutado’ contra o excesso de peso em algum momento. Imagine uma pessoa que está muito acima do peso, que se comprometeu com uma dieta rígida, e que de repente se depara com um teste determinante: uma pizza com todos os recheios, acompanhada por dois sacos extragrandes de batatas fritas ‘milagrosamente’ foi entregue em sua porta. Obviamente, algumas pessoas serão capazes de superar sua vontade de devorar a pizza e as batatas (nós os chamamos de excêntricos).
Mas outros provavelmente sucumbirão ao desejo. Por quê? A maioria das pessoas que sucumbem ao ‘teste da pizza’ pensam: "Encaremos a verdade - eu peso 136 kg. A quem estou enganando?" e começa a engolir a pizza e as batatas fritas. Em outras palavras, a razão pela qual continuam no mesmo caminho é porque estão com excesso de peso e assumem que essencialmente é isso que elas são.
Seu compromisso com a dieta está enraizado na tentativa de mudar seu comportamento - quando realmente deveriam se concentrar em tentar mudar sua percepção de si mesmas. Controlar o comportamento é extremamente difícil – porém mudar quem somos baseia-se em reimaginar quem queremos ser e, então, redefinir nossa autoidentidade. Uma pessoa com obesidade mórbida que come apenas alimentos casher não ficará tentada a comer um cheeseburger ou costelas de porco - não importa o quão delicioso possa ser - porque simplesmente esse comportamento está fora de questão.
Ela se autodefiniu como uma pessoa que só come casher e isso a fortalece apesar de sua extrema vontade de comer. Isso é o que Ramban quis dizer quando afirmou que o verdadeiro arrependimento é fácil. Simplesmente tentar não pecar resolvendo controlar o próprio comportamento é como tentar resolver os sintomas de uma doença sem abordar sua raiz. Não apenas é extremamente difícil de administrar - é simplesmente ineficaz.
Nossa missão em Yom Kipur é descobrir quem realmente queremos ser e nos comprometer a ser esse tipo de pessoa. Assim como uma pessoa que se comprometeu a comer casher não ficará tentada por um cheeseburger porque ele não existe em seu universo, ao nos comprometermos com uma nova definição de que tipo de pessoa queremos ser resultará em mais controle sobre como nos comportamos.
Ou seja: uma vez que definimos o que queremos que seja a nossa essência, podemos naturalmente alinhar nosso comportamento para atender a essa nova realidade. Isso é exatamente o que o arrependimento consegue. Embora seja verdade que devemos nos distanciar de como nos comportamos no passado, nosso compromisso não é apenas sobre uma mudança de comportamento – é uma mudança de autodefinição. Internalizemos a seguinte ideia: “No ano que vem posso ser confrontado com um teste deste mesmo pecado; espero ser capaz de me conter, porque eu realmente não quero mais ser aquele tipo de pessoa. Posso não estar perfeito, mas ao menos meus erros não serão por falha de autodefinição”. A autodefinição proporciona à pessoa um propósito e uma missão de vida.
Alguém que é impelido por desejos hedonistas ou inseguranças pessoais inexoravelmente segue por um caminho banal e tedioso que conduz à autodestruição. (Esta é uma das razões pelas quais somos instruídos a nos desligarmos de todas as formas de prazer físico no Yom Kipur, para que possamos trabalhar sobre o lado espiritual). Em contraste, uma pessoa que alcança o crescimento por meio da autodefinição se fortalece e se engrandece. Uma vez que Yom Kipur é o dia em que procuramos conhecer quem somos e nos comprometemos a viver uma vida que siga nossa nova autodefinição, ele se torna o dia ideal para encontros. Este exercício deautocrescimento nos coloca em contato com quem realmente somos e, assim, podemos entender com quem precisamos nos casar para ter o cônjuge mais incrível! Em última análise, quando o trabalho de Yom Kipur é feito corretamente, ele leva à autorrealização.
É por isso que o Talmud o descreve como um dos dias mais festivos do calendário judaico. Reconectarmo-nos com quem realmente somos nos leva a uma incrível autossatisfação e a uma maravilhosa sensação de alegria!
Rav Ytzchak Zweig