ABRAHAM STERN
𝕋𝕖𝕩𝕥𝕠 𝕕𝕖 𝔸𝕓𝕣𝕒𝕙𝕒𝕞 𝕊𝕥𝕖𝕣𝕟, 𝕡𝕒𝕣𝕒 𝕤𝕖𝕣 𝕝𝕚𝕕𝕠 𝕖 𝕣𝕖𝕝𝕚𝕕𝕠 𝕒𝕝𝕘𝕦𝕞𝕒𝕤 𝕧𝕖𝕫𝕖𝕤
Abraham Stern F.
San Jose - Costa Rica
Infelizmente não sei quem o traduziu, mas agradeço por tê-lo feito.
“Hoje acordei com uma ferida aberta na alma.
Pela primeira vez em cinquenta e oito anos, duvidei do meu povo.
Foi apenas um instante, mas o suficiente para que a dúvida, esse hóspede que sempre chega disfarçado de razão, se sentasse à minha mesa como um hóspede indesejado e me apontasse como o eterno agressor, como o judeu errante, condenado a vagar entre os vivos, perpetuamente apátrida, marcado por uma série de pecados coletivos inventados e reciclados a cada geração.
A dúvida, que nunca viaja sozinha, trouxe consigo o eco dos velhos gritos que ressoaram por séculos e que hoje se multiplicam num coro planetário: que o judeu é rico, que o judeu é controlador, que o judeu é capitalista, que o judeu é comunista, que o judeu é supérfluo, que o judeu é um incômodo, que o judeu deve desaparecer, que o judeu é tudo, absolutamente tudo. E o mais aterrorizante não era ouvi-lo nas praças, nos becos ou nas redes sociais, mas ouvi-lo reverberar dentro de mim, como se meus próprios ossos carregassem a memória do ódio.
O antissemitismo não é uma invenção nova. É um rio subterrâneo que mudou de curso mil vezes, mas nunca de destino: erradicar o judeu da face da Terra. Um rio que nasceu no Egito, quando o faraó ordenou que os filhos fossem jogados no Nilo. Que continuou na Babilônia, quando derrubaram nosso Templo e nos levaram cativos.
Que passou por Roma, que arrasou Jerusalém e nos espalhou como poeira ao vento.
Que visitou a Inglaterra em 1290, a França em 1306 e a Espanha em 1492, todas testemunhas abastadas de expulsões em massa que ainda hoje afirmam nos ensinar moralidade.
Que queimou nas fogueiras da Inquisição, que manchou de sangue os pogroms da Rússia e da Ucrânia, que se disfarçou de Peste Negra para nos acusar de envenenar poços, e que se esvaiu em fumaça em Auschwitz sob a modernidade alemã.
Esse mesmo rio desaguou em Israel em 7 de outubro de 2023, quando mais de 1.200 pessoas inocentes foram ceifadas em uma única madrugada de outono.
A terra ainda cheirava a romãs maduras e folhas caídas enquanto os corpos jaziam, e mais de 240 homens, mulheres e crianças foram engolidos por túneis de horror, como se o útero da terra tivesse se aberto para devorar seus filhos.
O que se seguiu foi ainda mais incompreensível: as praças do mundo se encheram de aplausos, como se as sombras tivessem encontrado uma orquestra e os assassinos tivessem recebido a absolvição de multidões embriagadas de ódio.
As Nações Unidas, com seus salões repletos de discursos vazios, e os governos mais imperialistas da era moderna, pareciam juízes cegos exigindo "contenção" dos atacados e "cessar-fogo" sem considerar os reféns, condenando-os pela segunda vez ao esquecimento.
Nunca antes na história, pensei, o massacre de judeus havia sido celebrado com tanta descaramento.
Hoje, um mês antes do segundo aniversário do massacre, a Cruz Vermelha Internacional não conseguiu ver um único refém, mas conseguiu posar impecavelmente em fotografias, acompanhando os poucos que retornaram, como se sua verdadeira missão fosse encobrir a tragédia para os arquivos do mundo.
Então me lembrei dos sequestrados, vivos ou mortos.
Vi os corpinhos das crianças Bibas e de sua mãe, Shiri. Vi Noa Argamani, cujo apelo ficou gravado na memória do mundo. Vi Carmela Dan, oitenta anos, e Eli Sharabi, arrancados para sempre dos braços de sua família.
E percebi que citar apenas alguns é injusto, porque cada nome que falta na lista é mais uma ferida aberta, mais uma evidência que desmente qualquer dúvida e expõe a mentira.
Israel não nasceu por capricho, mas por necessidade. Israel não foi uma dádiva, mas um resgate.
É o filho póstumo do Egito, da Pérsia, de Roma, da Inglaterra, da França e da Espanha, dos pogroms, da Shoah, de navios sem destino como o St. Louis (1939), com 937 judeus rejeitados em Cuba, Estados Unidos e Canadá, dos quais mais de 250 pereceram na Shoah. O Struma (1942), com 769 refugiados afundados no Mar Negro; apenas um sobreviveu.
O Êxodo (1947), com 4.500 sobreviventes do Holocausto, devolvidos pelos britânicos... à Alemanha.
Nunca duvide do que a história nos diz: "Os navios nem sempre chegam ao porto".
É por isso que Israel existe: porque não poderia não existir.
Entendi então que a verdadeira vitória do antissemitismo não está em passeatas, faixas ou redes sociais envenenadas. Não está na esquerda progressista, nem no movimento Woke, nem em atores de Hollywood.
Está em semear a dúvida em nós, em nos fazer acreditar que talvez mereçamos o que nos acontece. E não podemos conceder-lhe essa vitória, a mais sutil e perigosa.
Duvidei, e ao duvidar, compreendi que a dúvida é como uma rachadura na parede: pequena a princípio, talvez invisível, mas suficiente para que o vento inimigo sopre com seu sopro secular. Compreendi que essa rachadura é a primeira vitória daqueles que não precisam nos derrotar em batalha se puderem nos habitar em silêncio.
Compreendi também que não temos outro destino senão resistir, responder e fortalecer o nosso, como quem rega as raízes de uma árvore que sobreviveu às tempestades de cem gerações. Porque mil erros podem ter sido cometidos desde o início da guerra, mas existir jamais será um erro.
Mesmo que o repitam todos os dias, não acreditem: no saldo final de virtudes e defeitos, somos essencialmente um povo bom. E por mais que nos demonizem, vocês valem, seus filhos valem, todos os nossos descendentes valem.
Chega de explicações para aqueles que querem nos ver apagados do mapa.
Chega de súplicas para ouvidos que nunca ouvirão.
Cada palavra, cada força, cada recurso deve ser investido em nós mesmos, como o agricultor que guarda a melhor semente para sua própria colheita.
Que o ódio role sobre nós como chuva sobre as pedras do Jordão, que a dúvida se evapore como névoa ao sol, que a memória seja nosso escudo e espada.
Que aprendamos a ser menos sensíveis ao desprezo e mais disciplinados em nossa preparação. Que cada golpe que vier nos encontre prontos, de pé, ardendo na certeza de que existir nunca foi um erro.
Escrevo estas notas como uma catarse pessoal; e se eu puder apaziguar sentimentos semelhantes em outras pessoas, estarei dois passos mais perto do meu objetivo.
"Nunca diga que está em sua última jornada. Ouça os passos: somos um povo eterno." – Hino dos Partisans Judeus
AM ISRAEL CHAI.
Abraham Stern F. San José, Costa Rica, 5 de setembro de 2025”