SER ESPIÃO DO SIS - SERVIÇO de INFORMAÇÃO e SEGURANÇA
Um espião português deve ser “compreensivo” e “bom ouvinte”, saber “criar relações de cumplicidade” sem mostrar qual é o seu principal interesse, ser confiante, seguro, “generalista nos conhecimentos” mas capaz de conduzir a conversa para onde o seu interlocutor seja especialista. Deve ter como princípio duvidar e só acreditar após reflectir sobre o assunto. Deve…
Deve saber que não pode ligar sempre da mesma cabine telefónica e que depois de uma chamada de cariz operacional deve ligar para outro número para que ninguém consiga obter o primeiro número marcado. Deve saber o que é uma “live letter box”, uma “dead letter box”, uma “falsa bandeira”, ou um “walk-in” . E se tiver cicatrizes ou tatuagens deve saber à partida que, se não tiver possibilidade de escondê-las, não terá hipótese de ser recrutado para fazer vigilâncias. Isto no manual não é como nos filmes. Compleições físicas invulgares, ou pessoas que dão demasiado nas vistas, dispensam-se.
Todos estes requisitos são lembrados nas 222 páginas que compõem o Manual de Procedimentos do Serviço de Informações de Segurança (SIS), que funciona como um código de conduta dos espiões portugueses.
O documento que, prevê que os agentes das secretas possam fazer vigilâncias, interceptar telecomunicações ou pagar a fontes por matérias que deveriam estar cobertas por sigilo – apesar de a lei não lhes atribuir essas competências –, permite entrar no mundo secreto dos espiões, descobrir os nomes de código que utilizam, como devem abordar fontes humanas, vigiar alvos ou elaborar um simples relatório.
Em matéria de escrita, um oficial de informações é treinado para ser capaz de redigir um documento “exacto, completo, claro, conciso e coerente”, evitando a primeira pessoa do singular e do plural, o abuso de adjectivos e chavões e não incluindo conselhos, sugestões ou considerações. Deve ainda estar “mentalizado e organizado para elaborar informações com a rapidez que os acontecimentos graves ou urgentes exigem”.
Sexta-feira é dia de os agentes das secretas registarem toda a actividade operacional prevista para a semana seguinte, indicando as acções, o horário previsto e até as despesas que são previsíveis. À segunda-feira os oficiais de informações devem completar o documento, registando o que foi efectivamente cumprido, através da indicação dos documentos que foram produzidos.
Se o agente tiver como missão recrutar fontes humanas terá não só de seduzi-las como de elaborar relatórios em que avalia a pertinência, oportunidade e verosimilhança das notícias que estas produzem, o seu grau de confiança e nível de acesso. Afinal, são estas, revela o Manual de Procedimentos do SIS, quem, “de forma encoberta, pode vir a satisfazer a necessidade de saber” dos serviços. E a “principal função de um oficial de informações não é a recolha directa de notícias mas o recrutamento e gestão de fontes humanas” – na linguagem dos espiões, – que irão desempenhar essa função. Cabe ao espião localizar essas fontes – que podem ser pessoas, grupos sociais, empresas ou instituições – e tudo fazer para recrutá-las. Sabendo à partida que se a fonte for boa, ou tiver acesso a informação sensível, os pagamentos não serão um problema para as secretas. O importante é que um oficial de informações parta sempre do princípio básico de que “uma fonte desmotivada não tem bom rendimento e pode criar problemas no futuro”.
Primeiro, identificam-se os alvos. Depois, faz-se a selecção de quem se pretende recrutar. Como? Avaliando os acessos, o perfil, o carácter, as vulnerabilidades, a motivação, a identificação dos seus familiares e até os seus dados financeiros. Com o alvo escolhido, é criada uma operação de recrutamento, que terá um nome de código, à semelhança do alvo, até ao momento em que este for efectivamente recrutado. A proposta de recrutamento segue com todo o histórico, num envelope fechado, entregue à direcção-geral.
Prudência. É a recomendação do manual na hora em que um oficial de informações se aproxima de um alvo. Além de cautela, os espiões devem ter a capacidade de disfarçar o verdadeiro motivo por que se aproximam: é-lhes recomendado que criem (mesmo que ficticiamente) “pontos de afinidade” com o alvo, como passatempos ou a profissão. Nos diálogos, devem criar conflitos e saber transformá-los “em algo cativante”.
Na hora das vigilâncias não há “normas rígidas” para a distância que um espião português deve manter de um alvo. Só o básico: deve conseguir ver sem ser visto e aproximar-se e distanciar-se do alvo, mediante o local da acção, como se fosse um “harmónio”. É o manual que o diz. Se estiver a seguir um alvo “sofisticado”, deve afastar-se. Se estiver num centro comercial, deve aproximar-se. No final, vai ter de saber explicar quais os caminhos percorridos pelo alvo, os seus tiques, como se veste e como se penteia, qual o carro (com indicação do ano, cor, marca, tipo e estado), qual o jornal que lê, e até o tipo de perfume ...