OPERAÇÃO GLADIO - NATO
POR Miguel Sharon
Cruzar o contexto histórico da Guerra Fria com as dinâmicas atuais de defesa da NATO (OTAN) e a soberania nacional de Portugal. O termo Gladio carrega um peso histórico significativo, e sua menção em contextos modernos geralmente refere-se à criação de redes de resistência "stay-behind".
Para entender a tese de Miguel Sharon, é preciso revisitar a rede original. A Operação Gladio foi uma iniciativa da NATO e da CIA durante a Guerra Fria. O objetivo era criar exércitos secretos em países europeus para atuar em caso de uma invasão soviética.
- Função: Guerra de guerrilha, sabotagem e espionagem atrás das linhas inimigas.
- Controvérsia: Em países como a Itália, a rede foi acusada de interferência política interna e ligações com atos de violência durante os "Anos de Chumbo".
- Em Portugal: Embora Portugal fizesse parte da NATO, a extensão exata dessas redes durante o Estado Novo e o período pós-Revolução sempre foi um tema de debate entre historiadores e especialistas em inteligência.
A Nova Doutrina da NATO: Resiliência e Operações Não Convencionais
Atualmente, a NATO não usa o nome "Gladio", mas foca no conceito de Resistência Civil e Militar e Guerra Híbrida. Com a instabilidade no Leste Europeu e novas ameaças globais, a organização tem incentivado os Estados-membros a:
- Treino de Forças Especiais (SOF): Portugal tem unidades de elite (como os Rangers de Lamego ou os DAE da Marinha) altamente integradas nos comandos da NATO.
- Guerra Não Convencional: Treinar tropas para operar em ambientes onde o inimigo não é um exército regular, mas forças paramilitares ou agentes de desinformação.
- Stay-Behind Moderno: O desenvolvimento de protocolos para que, em caso de ocupação ou ataque cibernético massivo, existam células de inteligência capazes de manter a comunicação e a resistência ativa.
A Península Ibérica como Ponto Estratégico
A menção ao "renascer na Península Ibérica" prende-se com a posição geográfica de Portugal e Espanha:
- Porta de Entrada Atlântica: Portugal é o ponto de ligação vital entre os EUA e a Europa Continental.
- Segurança Marítima: O controlo das rotas do Atlântico Norte e do Mediterrâneo exige uma rede de inteligência robusta.
- Hub Tecnológico e de Dados: A proteção de cabos submarinos e infraestruturas críticas tornou-se a nova prioridade das operações especiais.
Análise Crítica
A ideia de um "novo Gladio" pode ser interpretada de duas formas:
- Perspetiva de Defesa: Uma atualização necessária das capacidades de inteligência para enfrentar ameaças modernas (ciberataques, sabotagem de infraestrutura).
- Perspetiva Crítica/Geopolítica: O receio de que estruturas de inteligência paralelas possam escapar ao controlo democrático ou servir interesses externos acima dos nacionais.
Diferente da Itália, onde a "Gladio" era o nome oficial da rede, em Portugal as operações estavam camufladas sob outras organizações. Abaixo, detalho como essa estrutura funcionou e como ela se conecta com as discussões atuais.
O "Braço Português": Aginter Press
Embora a rede stay-behind da NATO fosse internacional, em Portugal ela manifestou-se principalmente através da Aginter Press, uma agência de notícias de fachada estabelecida em Lisboa em 1966.
- Liderança: Fundada por Yves Guérin-Sérac, um antigo oficial do exército francês e membro da OAS (organização terrorista de extrema-direita).
- Natureza: Na prática, era um centro de mercenários, especialistas em sabotagem e agentes de inteligência.
- Ligação com o Estado Novo: Trabalhava em estreita colaboração com a PIDE/DGS e era financiada, segundo vários historiadores (como Daniele Ganser), indiretamente por agências ocidentais para combater a expansão comunista em África e na Europa.
Atividades e Missões
A rede em Portugal não se limitava à defesa contra uma invasão soviética. Ela era ativa na manutenção da ordem colonial e no combate a movimentos de esquerda:
- Infiltração: Agentes da Aginter infiltraram-se em movimentos de libertação africanos e em grupos de oposição interna.
- Treino de Guerrilha: Lisboa servia como hub para treinar agentes em técnicas de "guerra psicológica" e operações de "bandeira falsa" (atentados atribuídos ao inimigo para justificar repressão).
- Pós-25 de Abril: Após a Revolução de 1974, muitos destes operativos fugiram para Espanha (sob o regime de Franco) e participaram na criação do ELP (Exército de Libertação de Portugal), tentando desestabilizar o processo democrático português durante o Verão Quente de 1975.
O "Renascer" no Século XXI: O Conceito de Resistência
Quando autores modernos como Miguel Sharon mencionam o "renascer da Gladio", eles referem-se geralmente à transição das Forças Armadas Portuguesas para o ROC (Resistance Operating Concept) da NATO.
- A Nova "Gladio": Não é uma rede secreta de mercenários como a antiga, mas sim uma doutrina oficial. Portugal tem investido na modernização das suas Operações Especiais (como o Centro de Tropas de Operações Especiais em Lamego) para atuar em cenários de Guerra Híbrida.
- Foco Atual: Ao contrário do foco anticomunista do passado, a prioridade hoje é a proteção contra ameaças russas, ciberataques e a segurança de infraestruturas críticas (cabos submarinos de dados que passam por Portugal).
Diferenças Cruciais
Ponto de Reflexão: O desaparecimento de muitos arquivos da PIDE após 1974 (supostamente levados para Moscovo ou destruídos) ainda impede que se saiba a extensão total da Gladio original em Portugal. O debate atual levanta a questão: até que ponto o exército português deve estar preparado para operações "não convencionais" sem comprometer a transparência democrática?
A Aginter Press foi a face mais visível e operacional do que se convencionou chamar de "Gladio em território português". Embora a rede stay-behind oficial da NATO tivesse o objetivo teórico de resistir a uma invasão soviética, em Portugal ela funcionou como uma central multinacional de mercenários, contra-subversão e terrorismo de extrema-direita sob a proteção do Estado Novo.
Aqui estão os pilares para entender esta organização:
A Fachada: "Agência de Notícias"
Fundada em Lisboa em setembro de 1966, a Aginter Press apresentava-se como uma agência de imprensa internacional. Na realidade, era uma organização de mercenários e agentes de inteligência.
- Aparato: Os seus agentes viajavam pelo mundo com passes de imprensa e câmaras, o que lhes permitia infiltrar-se em zonas de conflito e recolher informações sem levantar suspeitas.
- Sede: Localizada na Rua Campolide, em Lisboa, escondia um arquivo vastíssimo, comparável ao de um serviço secreto de um país de média dimensão.
O Protagonista: Yves Guérin-Sérac
O mentor da Aginter foi Yves Guérin-Sérac, um antigo oficial do exército francês, veterano das guerras da Indochina e da Coreia e membro da OAS (organização terrorista que tentou impedir a independência da Argélia).
- Ideologia: Era um católico fervoroso e anticomunista radical que via a guerra contra o comunismo como uma cruzada global que não podia ser travada apenas por vias democráticas ou militares convencionais.
- Ligação à PIDE: Guérin-Sérac mantinha uma relação simbiótica com a PIDE (polícia política portuguesa), treinando unidades de contra-insurreição para as guerras coloniais em Angola e Moçambique.
Operações e a "Estratégia da Tensão"
A Aginter Press não atuava apenas em Portugal. Foi uma peça-chave na Estratégia da Tensão na Europa, especialmente em Itália:
- Itália: Investigações do Senado italiano ligaram a Aginter e o seu colaborador Stefano Delle Chiaie a atentados bombistas (como o da Piazza Fontana em 1969), desenhados para serem atribuídos à extrema-esquerda e forçar o governo a adotar medidas autoritárias.
- África: A organização esteve envolvida no planeamento dos assassinatos de líderes anticoloniais, como Eduardo Mondlane (FRELIMO) e Amílcar Cabral (PAIGC).
- Bandeira Falsa: Especializaram-se em operações de "falsa bandeira", onde cometiam atos de violência simulando serem grupos revolucionários para descredibilizar causas políticas.
O Fim e a Herança Clandestina
Com a Revolução dos Cravos (25 de Abril de 1974), a infraestrutura da Aginter em Lisboa colapsou:
- Fuga: Guérin-Sérac e os seus homens fugiram para a Espanha de Franco, levando consigo parte dos arquivos.
- Desestabilização: A partir de Espanha, ajudaram a fundar o ELP (Exército de Libertação de Portugal), que realizou atentados bombistas e ataques em solo português durante o Verão Quente de 1975, tentando reverter o processo revolucionário.