LARGANDO ESSA CERVEJA!
Largando essa cerveja !
POR Rabino Efrem Goldberg
O fundamento da recuperação e do crescimento espiritual: em vez de pensar no "para sempre", concentre-se no hoje.
Vinte anos atrás, uma mulher que eu conhecia veio até mim com o coração pesado. Seu marido havia se tornado alcoólatra — não era um caso de bebida social ou “um pouco demais no kidush”, mas um padrão que lentamente estava destruindo sua vida e seu lar. Ela sabia que algo precisava mudar, mas não tinha coragem de confrontá-lo. Ela me perguntou se eu o faria.
Eu era um rabino jovem, inexperiente nessa área (e na maioria das outras), mas sabia de uma coisa: o confronto pode humilhar ou pode curar. Pode levar uma pessoa a um estado ainda maior de negação ou se tornar o início da redenção. Concordei em falar com ele porque o silêncio não era mais uma opção.
Liguei e perguntei se podia dar uma passada. Não expliquei o motivo — apenas disse que queria colocar o papo em dia. Nunca me esquecerei daquela noite: o medo ao chegar, a oração sussurrada pedindo a D'us as palavras certas. Sentamos do lado de fora. Com sua típica hospitalidade, ele abriu duas cervejas, uma para ele e outra para mim. À primeira vista, parecia apenas dois amigos batendo papo numa noite quente da Flórida. Conversamos sobre trabalho, família, vida. Foi um encontro casual.
Mas, no fundo, eu sabia por que estava ali. Não para julgá-lo ou rotulá-lo, mas para compartilhar uma verdade que sua esposa, seus amigos próximos e eu víamos claramente — e que ele provavelmente sabia, mas não havia encarado. Em certo momento, conduzi a conversa delicadamente para onde ela precisava ir.
"Olha, eu não vim só para bater papo. Vim porque sua esposa, alguns amigos próximos e eu estamos muito preocupados. Vemos o papel que o álcool desempenha na sua vida, e não é saudável; a situação saiu do controle. Não é fácil para mim dizer isso, mas é ainda mais difícil ver você continuar assim e não dizer nada."
Em momentos como esse, você se prepara para a raiva ou a negação: "Todo mundo bebe. Cuide da sua vida." Você espera uma reação defensiva.
Ele não fez nada disso. Olhou para mim — olhou mesmo para mim — com um olhar longo e inquisitivo. Não era um olhar de ódio, nem mesmo particularmente raivoso. Era o olhar de um homem subitamente confrontado com um espelho do qual não podia mais escapar. Parecia que ele se perguntava: “É isso mesmo que as pessoas veem? Sou alcoólatra? Perdi o controle?”
Então, silenciosamente, sem alarde, ele pousou a cerveja e não tomou mais um gole. Continuamos conversando. Não houve explosão emocional, nenhuma declaração dramática. Mas, naquele simples gesto, uma linha foi traçada. Uma decisão foi tomada.
Seu último drinque
Aquela cerveja foi a última bebida que ele tomou. A partir daquele dia, ele se dedicou à recuperação. Não fez isso sozinho. Entrou para um programa, frequentou reuniões, conseguiu um padrinho e se cercou de pessoas que entendiam sua luta. Desde então, não tocou mais em álcool.
Vinte anos de sobriedade significaram vinte anos de uma postura diferente para com sua família, para consigo mesmo, para sua carreira e para com D'us. De fora, parece uma decisão tomada ao longo de duas décadas. Mas a recuperação não se vive em blocos de vinte anos. Ela se vive um dia de cada vez.
Quando alguém se depara com um hábito destrutivo — álcool, drogas, raiva, desonestidade, impaciência, qualquer coisa — e ouve "Você nunca mais poderá fazer isso pelo resto da sua vida", a reação natural é o pânico. "Nunca mais? Para sempre? Isso é impossível. É garantido que vou fracassar." "Para sempre" parece tão grande que paralisa antes mesmo do primeiro passo.
Não fomos feitos para viver “para sempre”. Só podemos viver o hoje. Quando você diz: “Não beba hoje ”, algo muda. O hoje se torna administrável. O hoje é concreto. Transfira o desafio para “sempre” e ele parecerá desesperador. Reduza-o para “mais um dia” e ele se tornará possível.
Esse é o segredo da recuperação: um dia de cada vez. Não é "Eu nunca mais vou beber", mas sim "Hoje, eu não vou beber. Hoje, eu vou ficar sóbrio". Amanhã, com a ajuda de D'us, você repete isso. Você não fica sóbrio por vinte anos; você fica sóbrio por esta manhã, esta tarde, esta noite. Vários dias juntos se somam e se transformam em algo enorme.
Os Sete Longos Anos de Yakov
Quando Yakov concorda em trabalhar para Lavan por sete longos e difíceis anos para se casar com Raquel, a Torá diz que esses sete anos pareceram “k'yamim achadim”, como alguns dias, por causa do seu amor por ela. À primeira vista, isso parece difícil de entender — quando se espera e se anseia por algo, o tempo parece passar lentamente.
O rabino Dr. Abraham J. Twerski z”l, um especialista mundialmente renomado em vícios e recuperação, sugere uma bela reflexão: “ achadim ” compartilha a mesma raiz que “ echad ”, um. Yakov não viveu aqueles sete anos como um bloco de tempo esmagador. Ele os viveu como “ yamim echadim ” — um dia de cada vez. Cada dia era um dia a mais de distância, um dia de compromisso, um dia de confiança em D'us. Sete anos é assustador. Hoje não é. Viva o hoje, e até mesmo sete anos podem passar “como alguns dias”.
Quando meu amigo largou a cerveja, acho que ele não estava imaginando vinte anos de perfeição. Ele estava dando o próximo passo certo: encarando a verdade, buscando ajuda, indo a uma primeira reunião, dizendo não ao impulso imediato. D'us pegou aquele "hoje" corajoso e, um dia de cada vez, o transformou em vinte anos.
Um Poder Superior
Nos encontramos recentemente para conversar novamente e comemorar esse aniversário. Ele me disse: “Quando larguei a cerveja, algo aconteceu — algo humanamente inexplicável. A única explicação possível é D'us. Ele foi o catalisador que deu início a essa jornada.”
Na recuperação, o terceiro passo é submeter-se a um poder superior. Vinte anos atrás, meu amigo descobriu um relacionamento verdadeiro com D'us, uma conversa contínua com o Todo-Poderoso.
Enquanto eu admirava sua força, pensei: todos nós temos algo em que precisamos trabalhar — um temperamento explosivo, uma fala impulsiva, preguiça, ciúme, um comportamento privado do qual nos arrependemos. Quando você diz: "Nunca mais devo fazer isso pelo resto da minha vida", você se prepara para se sentir arrasado.
E se, em vez disso, você falasse da maneira que a Torá e a recuperação ensinam: “Hoje, serei cuidadoso com minhas palavras. Hoje, serei mais paciente. Hoje, não abrirei aquele site, aquela garrafa, aquela porta. Hoje, me apresentarei como o cônjuge, pai/mãe, amigo(a), judeu(a) que sei que posso ser.” E amanhã, se D'us quiser, você dirá isso novamente.
O para sempre não está em suas mãos. O hoje, sim.
Vinte anos atrás, o medo de uma esposa, a disposição secreta de um marido e uma conversa difícil, porém carinhosa, se encontraram em uma varanda. Ainda consigo ouvir o som dele pousando a cerveja. Aquele pequeno gesto, quase insignificante, não apenas encerrou um gole; deu início a uma nova vida.